RIO GRANDE DO NORTE — O semiárido brasileiro reúne cerca de 28 milhões de pessoas em mais de mil e duzentos municípios, segundo o Instituto Nacional do Semiárido. Nesse território, as cisternas se consolidaram como uma das principais respostas à falta d’água durante o período mais seco, entre junho e setembro. Os reservatórios captam a chuva que costuma ocorrer entre fevereiro e maio.
O programa de cisternas começou em 2000 e ganhou escala a partir de 2003, no início do primeiro governo Lula. Atualmente, beneficia 1,2 milhão de famílias no Rio Grande do Norte. Os equipamentos destinados ao consumo humano armazenam 16 mil litros de água.
A turismóloga Raianne Kelly relata que, antes da instalação do sistema, sua família precisava buscar água em um dessalinizador localizado em uma comunidade vizinha. Com a cisterna, a água da chuva passou a ser usada para beber e cozinhar, desde que seja feita a manutenção do reservatório.
Para o pecuarista José Fernandes, conhecido como Duda, a tecnologia também ajudou a manter sua permanência no campo e a garantir seu sustento. Ele defende mais incentivo à atividade rural e aponta a falta de sucessão entre as novas gerações.
Tecnologias sustentáveis e mudanças no regime de chuvas
A expansão das cisternas variou conforme o período de governo. Em 2014, durante a gestão de Dilma Rousseff, foram construídas quase 150 mil unidades. Em 2022, no governo Jair Bolsonaro, o número ficou abaixo de 4 mil.
Moradores também relatam alterações no período das chuvas. Maria Josete afirma que, anteriormente, a precipitação começava em dezembro, enquanto atualmente se inicia de forma mais fraca em janeiro e ganha intensidade apenas por volta de março. Ela associa a mudança às alterações climáticas.
Na propriedade de Josete, um biodigestor transforma esterco bovino em gás para a cozinha. O material é misturado à água e conduzido por tubulações até o equipamento, que produz combustível suficiente para permitir, em alguns períodos, até seis meses sem a compra de gás.
Mineração e impactos nas comunidades
Em Seridó, no Rio Grande do Norte, a mineração expõe outro lado da relação entre desenvolvimento e recursos naturais. A exploração de minérios, realizada pela mineradora canadense Aura, é associada por moradores a explosões, danos em imóveis, poeira e problemas respiratórios.
Danielle Soares, moradora do Geoparque Seridó, mostra rachaduras na casa de sua família, localizada na zona rural. Segundo ela, os pais abandonaram o imóvel por causa dos riscos estruturais e passaram a viver na área urbana.
Rani Souza, do Instituto Seridó Vivo, afirma que o modelo de extração provoca desmatamento de grandes áreas da Caatinga próximas às comunidades. Ela relata que as explosões ocorrem de segunda a sexta-feira e estariam causando tremores, rachaduras nas casas e aumento de problemas respiratórios entre os moradores.
A expansão da geração de energia eólica também é alvo de debate. Francisco Teixeira, coordenador do Serviço de Apoio a Projetos Alternativos, defende que as políticas de desenvolvimento considerem quem se beneficia delas e como as decisões são tomadas nas comunidades. Para ele, a geração de riqueza não deve atender apenas aos interesses de empresas mineradoras ou de grupos econômicos ligados às energias eólica e solar.


