SALINAS — Moradores de Salinas, no Norte de Minas, foram às ruas no domingo (7) para contestar a autorização dada à PLS Brasil Mineração para retirar água da Barragem de Salinas. A empresa pretende usar o recurso no tratamento do minério de lítio do Projeto Colina.
A permissão foi emitida pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) em maio de 2026 e autoriza a captação de cerca de 150 mil litros por hora. Em operação contínua, o volume chega a aproximadamente 3,6 milhões de litros por dia. A água abasteceria a Unidade de Tratamento de Minerais (UTM), planta onde o minério será beneficiado.
O reservatório atende o abastecimento público de Salinas e Rubelita, além de produtores rurais e do consumo humano. O Movimento Popular de Preservação das Águas da Barragem de Salinas pede a revisão e a suspensão da outorga. “Nós vamos defender a água da nossa barragem”, afirmou Felipe Oliveira, um dos articuladores do grupo.
Mobilização e disputa pela outorga
A reação começou depois da publicação da autorização. Em 5 de agosto, o movimento organizou, no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Salinas, o debate público “O que fica depois do lítio?”. O encontro reuniu especialistas da Universidade Federal do Vale do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (EMATER-MG), moradores de Araçuaí e Itinga, representantes do Hospital São Vicente de Paulo, de Araçuaí, além de autoridades e lideranças locais.
Uma das decisões tomadas foi pedir habilitação no processo de outorga. O objetivo é que o grupo seja reconhecido como parte interessada, com possibilidade de consultar documentos, apresentar argumentos por escrito e solicitar formalmente que o Igam negue a autorização à mineradora.
Durante o ato, Oliveira afirmou em suas redes sociais que “o poder emana do povo e o povo está nas ruas”. Marta Leandra Pereira, também participante da manifestação, disse que a empresa não deveria usar a água da barragem, destinada a Salinas e à região.
A preocupação da população está ligada ao histórico de escassez hídrica local. Antes da construção do reservatório, o abastecimento chegou a ser feito por carros-pipa que buscavam água em locais distantes, como o rio Vacarias, a 31 km da sede. Oliveira também citou a seca de 2015, quando Taiobeiras operou de 30 a 40 caminhões-pipa por dia a partir de Salinas, e relacionou os períodos prolongados de estiagem ao risco de redução do volume disponível.
A outorga é o instrumento pelo qual o poder público autoriza o uso da água de rios e reservatórios. Como o rio Salinas é de domínio estadual, cabe a Minas Gerais conceder, condicionar ou negar o direito de uso. Essa atribuição é exercida pelo Igam, autarquia vinculada à Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semad).
Empresa, reservatório e medidas adotadas
A PLS Brasil Mineração Ltda. é o braço brasileiro do grupo australiano PLS Group. Nos processos de licenciamento e outorga, a empresa aparece com o nome Belo Lithium Mineração Ltda. A denominação mudou em 2026, mas o CNPJ foi mantido.
O Projeto Colina era desenvolvido pela Latin Resources por meio da Belo Lithium. Em agosto de 2024, a Pilbara Minerals comprou a Latin Resources por cerca de US$ 370 milhões. A aquisição foi concluída em fevereiro de 2025, e o projeto, antes chamado “Salinas”, passou a se chamar Colina.
Segundo o Igam, a Barragem de Salinas tem capacidade de 92 milhões de m³. Ela atende o abastecimento público de Salinas e Rubelita e cerca de 300 pequenos produtores com lavouras irrigadas a jusante, nas localidades de Curralinho, Baixa Grande, Pavão e Canela D’Ema. O reservatório é administrado pela Copasa desde dezembro de 2024. A concessionária afirma que a decisão sobre outorgas cabe ao Igam.
A barragem integra a sub-bacia do rio Salinas, formada pelos rios Matrona, Salinas, Bananal e Caraíbas. O reservatório fica na unidade de planejamento JQ3, no Médio e Baixo Jequitinhonha, região de clima semiárido e período seco superior a seis meses. A estrutura foi construída no início dos anos 90 para enfrentar a escassez hídrica regional.
As reações ocorrem em duas frentes. Na Justiça, uma Ação Popular Ambiental ajuizada em agosto pelo advogado Anderson Brito pede a suspensão da captação até que uma perícia independente avalie a profundidade atual do reservatório, o assoreamento e o volume efetivamente disponível para todos os usos.
A ação também questiona a diferença entre datas de documentos. A outorga foi publicada em 28/05/2026, enquanto um acordo entre Ministério Público, Estado, Copasa e PLS foi assinado em 24 e 25/06/2026. O acordo determinava que a empresa deveria pedir, obter e manter uma outorga própria, embora a autorização já tivesse sido publicada.
No processo administrativo, dois produtores rurais pediram habilitação para consultar os documentos e apresentar manifestações. O movimento afirma que pretende suspender ou revisar a outorga até que os estudos técnicos sejam apresentados publicamente e, ao final, revogar o direito de uso da água.
O licenciamento ambiental do Projeto Colina foi aprovado pela Câmara de Atividades Minerárias (CMI) do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam). O parecer registrou impactos relacionados à qualidade do ar, à fauna, a cavidades naturais e à comunidade quilombola Olaria/Bagre, incluindo alterações no território, na paisagem, nas áreas de coleta de pequi e na dinâmica cultural. Para a comunidade, foi previsto o Programa de Incentivo e Monitoramento Cultural e Socioeconômico da Comunidade Remanescente de Quilombo Olaria/Bagre (PIMCS).


