A frase “O Brasil não cabe no quintal de ninguém!”, dita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em discurso na ONU e recebida com aplausos, é apresentada por Paulo Nogueira Batista Jr. como mais do que um possível slogan eleitoral. O economista e escritor afirma que a expressão remete ao peso territorial, demográfico e econômico do país, mas também expõe uma dúvida sobre a capacidade brasileira de preservar sua soberania.
O Brasil é descrito no artigo como um dos gigantes mundiais: tem o quinto maior território, a sétima maior população e a oitava economia. O país integra, ao lado de China, Índia, Rússia e Estados Unidos, um grupo de cinco nações que aparecem entre as dez maiores do mundo nos três critérios.
A dimensão estratégica também estaria relacionada às reservas de terras raras, minerais críticos, urânio, petróleo e minério de ferro. O autor acrescenta a biodiversidade brasileira e a tradição cultural do país, além de características que atribui à população, como humanidade, simpatia, cordialidade, criatividade e capacidade de trabalho.
A ameaça apontada pelo autor
Apesar desse conjunto de recursos, Batista Jr. questiona se o Brasil está em condições de proteger sua autonomia. Ele aponta dois motivos interligados. O primeiro é a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, apresentada no artigo como uma opção alinhada aos Estados Unidos de Donald Trump e com possibilidade de vitória, conforme as pesquisas mencionadas.
O autor destaca uma proposta atribuída ao candidato: em caso de vitória, criar “uma equipe de transição à disposição do governo americano”. A frase teria aparecido em uma carta de agradecimento de Marco Rubio, secretário de Estado de Trump.
O segundo motivo é a política externa dos Estados Unidos, descrita como imperialista e intervencionista. Batista Jr. usa o termo hiperimperialismo, associado no texto ao analista Vijay Prashad, e cita a Venezuela como exemplo de país transformado em protetorado americano.
O artigo afirma ainda que documentos oficiais e pronunciamentos de Trump e de seus ministros apresentam o Hemisfério Ocidental, da Groenlândia à Patagônia, como área de influência exclusiva dos Estados Unidos. Nessa avaliação, a submissão do Brasil seria necessária para completar essa hegemonia, e a eleição de Flávio Bolsonaro permitiria alcançar o objetivo sem conflito militar direto.
Defesa nacional
Batista Jr. afirma que uma eventual reeleição de Lula não eliminaria o problema. O Brasil, segundo ele, não está bem preparado para enfrentamentos militares, uma vulnerabilidade que considera antiga e que já havia sido discutida no livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém, publicado em 2019.
O autor diz supor que Lula e sua equipe estejam conscientes da necessidade de reforçar a defesa nacional. Ele afirma imaginar que esse esforço tenha começado ao menos em 2026, depois dos acontecimentos mencionados no texto envolvendo Venezuela, Cuba e Irã.
A estratégia defendida combina recursos próprios com cooperação militar e tecnológica com França, Turquia, Irã, Rússia e China. Para Batista Jr., um esforço concentrado do governo e do país poderia superar a vulnerabilidade estratégica e permitir que o ponto de interrogação da frase fosse retirado.
Paulo Nogueira Batista Jr. é apresentado como autor, economista e escritor. Foi vice-presidente e fundador do Novo Banco de Desenvolvimento, criado pelos BRICS em Xangai entre 2015 a 2017, e ocupou a direção executiva do FMI, representando o Brasil e mais 10 países em Washington, de 2007 a 2015.


