Dois beagles geneticamente modificados nasceram sem produzir a proteína Can f 1, associada a reações alérgicas provocadas por cães. O trabalho foi desenvolvido pela startup de biotecnologia Kindred Companion Sciences, sediada em Nova York, com uso da técnica de edição genética CRISPR.
Os animais, chamados Alfie e Bailey, têm quase dois anos. A empresa afirma que ambos apresentam desenvolvimento considerado normal. Testes realizados pela própria Kindred não identificaram a proteína alergênica nos cães. Matt Walker, cofundador da empresa e tutor de Bailey, também não apresentou reação alérgica ao animal.
A estratégia começou com a alteração do gene responsável pela produção da Can f 1 em células de cães. Em seguida, os pesquisadores usaram clonagem para levar o material genético modificado a embriões, que foram implantados em uma cadela beagle utilizada como mãe de aluguel. O nascimento dos dois animais foi descrito em estudo publicado na revista The CRISPR Journal.
Resultados ainda preliminares
A ausência da proteína nos testes não permite afirmar que a alteração seja totalmente segura. Efeitos relacionados ao envelhecimento ou eventos raros podem aparecer somente com um acompanhamento mais longo. Especialistas também alertam que intervenções genéticas podem gerar consequências inesperadas.
Uma preocupação é que problemas de saúde pouco frequentes só sejam percebidos depois que muitos animais tenham sido produzidos. Por esse motivo, Alfie e Bailey são considerados uma etapa inicial, e não uma demonstração definitiva de que cães com menor potencial alergênico possam ser criados para venda. Os animais geneticamente modificados ainda não estão disponíveis aos consumidores.
A proposta também retoma discussões sobre a seleção artificial de cães. Ao longo das gerações, criadores escolheram animais com características específicas, processo que ajudou a formar raças modernas, mas também esteve associado à disseminação de doenças hereditárias. Focinhos muito achatados e costas excessivamente longas, por exemplo, estão relacionados a problemas de saúde em determinadas raças.
Limites da intervenção genética
A edição do DNA pode ter aplicações diferentes da criação de características desejadas por humanos. Um estudo publicado em 2022 indicou ser tecnicamente possível editar uma mutação relacionada a problemas no quadril de cães da raça labrador. Ainda assim, a alteração de um único gene não elimina necessariamente doenças complexas, que podem resultar da combinação de fatores genéticos e ambientais.
Especialistas defendem que a saúde dos cães também seja favorecida por mudanças nos padrões das raças, aumento da diversidade genética e ampliação dos exames genéticos. No caso dos animais com menor potencial alergênico, o debate inclui ainda o uso de doadores de células ou óvulos e de mães de aluguel durante o desenvolvimento.
A Kindred não é a única empresa a anunciar animais geneticamente modificados para reduzir alergias. Gatos com essa finalidade também já foram apresentados, mas, mais de dois anos depois da divulgação, ainda não chegaram ao mercado. Para os beagles, será necessário verificar se a ausência da Can f 1 continua estável e se a modificação não provoca outros efeitos.
A tecnologia, portanto, ainda está distante de permitir a compra de cães geneticamente modificados por pessoas que buscam animais com menor potencial alergênico. A avaliação envolve tanto a segurança da alteração quanto as consequências das práticas usadas para criar esses animais.



