MADAGASCAR — Em uma floresta onde a vegetação pode impedir que os animais se enxerguem a poucos metros de distância, os indris usam cantos para manter contato. Um estudo indica que esses lêmures abrem mais a boca quando emitem notas agudas, modificando o formato do trato vocal de maneira compatível com o chamado ajuste de formantes.
O mecanismo altera as frequências de ressonância do som e pode aumentar sua potência e seu alcance. Filippo Carugati, da Universidade de Turim, na Itália, comparou a mudança à transformação do timbre de um instrumento de sopro quando seu tubo fica mais longo ou mais curto. O trabalho foi publicado na última segunda-feira (21) na revista PLoS Computational Biology.
Análise de imagens e sons
Para investigar a relação entre os movimentos faciais e a altura das notas, os pesquisadores examinaram 83 gravações em vídeo de 19 indris selvagens. O material foi produzido na floresta de Maromizaha e na reserva de Mitsinjo, em Madagascar. A equipe acompanhou pontos do rosto dos animais quadro a quadro e cruzou essas informações com áudios sincronizados.
A abertura da boca permitiu prever de forma consistente a altura dos sons, segundo Carugati. Os cantos dos indris têm notas longas, fortes e ascendentes e descendentes. Machos e fêmeas cantam em dueto, entrelaçando as frases em vez de apenas sobrepor as vozes.
Mais que uma vocalização
Os cantos ajudam os grupos familiares a se relacionar com o ambiente. Sua principal função é territorial: eles anunciam a presença de um grupo em uma paisagem em que os vizinhos muitas vezes não podem ser vistos. Quando um grupo avista outro nas proximidades, essas vocalizações tendem a ficar mais longas.
A comunicação também contribui para manter os grupos separados e evitar confrontos ligados à defesa de recursos. Carugati resumiu essa função como “comunicação substituindo o conflito”. Em outras situações, os indris cantam para se reencontrar depois de se separarem na floresta. Nesses casos, as vocalizações podem ser mais lentas e apresentar pausas mais longas.
A coautora Chiara De Gregorio, da Universidade de Warwick, na Inglaterra, afirmou que a descoberta também chama atenção para o risco enfrentado pelos animais. Os lêmures vivem na natureza apenas em Madagascar, e os indris são os únicos conhecidos por cantar. Eles são a maior espécie de lêmure ainda existente, mas sua população está diminuindo à medida que as florestas são derrubadas e fragmentadas pela atividade humana.
Uma solução que surgiu em espécies diferentes
Os indris integram um grupo de animais que aparentemente modifica o trato vocal para fazer os sons alcançarem maiores distâncias. Mecanismos semelhantes foram relatados em gibões cantores, lobos-cinzentos uivadores e camundongos-gafanhoto.
Humanos e lêmures são primatas, mas suas linhagens evolutivas se separaram há cerca de 70 milhões de anos. A presença de uma adaptação comparável nos indris é apresentada como exemplo de espécies diferentes desenvolverem soluções semelhantes quando a comunicação a distância se torna importante.
De Gregorio afirmou que os indris têm sido extremamente difíceis de manter e reproduzir em cativeiro. Para ela, a sobrevivência da espécie depende da proteção dos animais em seu ambiente natural.


