Um experimento com três exemplares de polvo-da-Califórnia (Octopus bimaculoides) indica que esses animais conseguem usar um espelho como ferramenta de navegação. Diante de uma presa que não podiam enxergar diretamente, os polvos identificaram o lado correspondente do tanque e seguiram até ele.
Os animais acertaram o lado em 73% das tentativas. O resultado foi observado em um estudo publicado em junho na revista Current Biology, que investigou se os polvos apenas se aproximariam da imagem refletida ou se conseguiriam relacioná-la a uma posição real no ambiente.
Do reflexo à rota
Antes dos testes, os pesquisadores acostumaram os animais ao espelho. A medida buscava evitar que eles interpretassem a própria imagem como a presença de outro polvo e reagissem de forma defensiva. “O primeiro passo foi fazer o animal entender que não há ameaça alguma vinda do que eles veem”, explicou a psicóloga Mary Kieseler, coautora do estudo.
Depois dessa adaptação, caranguejos foram colocados em um recipiente que os polvos já sabiam abrir. O recipiente ficava fora da linha direta de visão, o que obrigava os animais a recorrer ao reflexo para localizar a presa. Nas primeiras tentativas, eles se dirigiam ao espelho. Após 10 a 12 tentativas, passaram a contornar a estrutura e seguir até o ponto onde o alvo estava.
Na fase principal, o caranguejo real foi trocado por uma versão virtual projetada em uma tela. Com isso, os pesquisadores impediram que sinais químicos orientassem a busca. Os polvos têm quimiorreceptores, e a equipe não queria que eles detectassem o cheiro ou o gosto de um caranguejo de verdade.
Em cada teste, a presa virtual aparecia de um dos lados do tanque e podia ser vista somente pelo espelho. O polvo precisava sair de uma pequena câmara, contornar a estrutura e alcançar o lado correspondente para receber uma recompensa.
Um caminho que não era o mais óbvio
Em 59% dos testes com destino correto, os animais escalaram a parede lateral da câmara, em vez de seguir diretamente até a imagem refletida. Esse movimento indicou que eles não estavam simplesmente perseguindo o reflexo. Um dos polvos fez a mesma escolha já na primeira tentativa.
Para os pesquisadores, o padrão é compatível com a percepção mediada por espelho: o uso de uma imagem visível para descobrir a localização de algo que permanece fora do campo de visão direto. A capacidade já havia sido observada em vertebrados, mas foi documentada entre invertebrados pela primeira vez nesse estudo.
A pesquisa não avaliou se os polvos reconhecem a própria imagem. Esse é o objetivo do teste de autorreconhecimento, que costuma envolver uma marca colocada em uma parte do corpo que o animal não consegue observar diretamente. O comportamento esperado é que ele tente examinar a marca ao se ver no espelho.
Uma capacidade sem autorreconhecimento
A aplicação desse teste aos polvos é mais complexa porque a pele desses animais é altamente sensível e pode detectar estímulos produzidos por uma marca. Por isso, a equipe decidiu investigar antes uma habilidade mais básica: usar o espelho para se orientar.
A distância evolutiva entre polvos e seres humanos também foi considerada pelos pesquisadores. Cefalópodes e vertebrados seguiram caminhos distintos há mais de 520 milhões de anos, mas desenvolveram capacidades perceptivas e cognitivas semelhantes. Para Kieseler, os mecanismos necessários ao uso do espelho podem ser resultado de evolução convergente, desenvolvida de forma independente nas duas linhagens.
A equipe relaciona essa possibilidade ao modo como os polvos vivem e se deslocam. Esses animais caçam e escapam de predadores em ambientes complexos, como rochas e recifes. Nesses espaços, avaliar distâncias, obstáculos e rotas diferentes pode ser importante para a navegação.


