GOLD COAST, AUSTRÁLIA — Um estudo científico descreveu o comportamento de uma baleia-jubarte diante da morte de seu filhote recém-nascido. Durante mais de uma hora, a fêmea retornou várias vezes ao mesmo ponto, tocou a cria com a cabeça e a barbatana peitoral e permaneceu junto dela no fundo do mar, a um quilômetro da costa.
O registro foi feito por meio de imagens subaquáticas em julho passado. A cria permanecia imóvel, enquanto uma segunda baleia adulta, provavelmente uma acompanhante, também ficava nas proximidades. A mãe não tentou levar o filhote à superfície. Para os pesquisadores, isso pode indicar que ela reconheceu a morte ou não conseguiu retirar o corpo do fundo do oceano.
Um comportamento raro entre baleias de barbas
A pesquisa apresenta o que os autores consideram o primeiro estudo científico detalhado sobre uma mãe jubarte cuidando de um filhote recém-nascido morto. Casos desse tipo são difíceis de observar porque recém-nascidos mortos de baleias de barbas costumam afundar rapidamente.
As jubartes dão à luz depois de quase um ano de gestação. Nos meses seguintes, a mãe alimenta a cria com leite rico em nutrientes e a protege durante a migração. Logo após o parto, costuma levantá-la até a superfície para ajudá-la a respirar pela primeira vez. Algumas crias, porém, não sobrevivem, o que pode estar relacionado a doenças, poluentes ou à falta de reservas de gordura da mãe.
A atenção dispensada a animais em perigo é conhecida como comportamento epimelético. Esse padrão é comum entre cetáceos, grupo que inclui baleias, golfinhos e botos. Jubartes já foram observadas protegendo filhotes contra orcas, permanecendo perto de baleias feridas ou presas em redes e tentando ajudar animais atacados.
Golfinhos e orcas também ficam próximos de companheiros em dificuldade. Em abril, na costa noroeste da Escócia, várias baleias-piloto encalharam depois de seguir uma fêmea que estava dando à luz.
O que o registro revela sobre o luto
Mães orcas já foram vistas carregando filhotes mortos por horas, dias e, em casos excepcionais, semanas. Em 2018, a orca Tahlequah carregou sua cria morta por 17 dias e percorreu mais de 1.500 quilômetros. Comportamentos semelhantes foram observados em baleias-piloto e golfinhos.
A permanência junto de uma cria morta pode estar associada à força do vínculo materno, aos instintos de cuidado ou às alterações hormonais posteriores ao nascimento. Ainda assim, os pesquisadores não conseguem medir diretamente o estado emocional das baleias. Por isso, evitam afirmar que os animais experimentam o luto no sentido humano e preferem expressões mais amplas, como comportamento atencioso pós-morte.
Integrantes do público relataram que duas jubartes adultas permaneceram na área nos dois dias seguintes, mas a equipe não conseguiu confirmar se eram os mesmos animais. O estudo também observou que a mãe suspendeu comportamentos normais, como viajar ou socializar com outras baleias.
O caso sugere que as jubartes mantêm fortes laços maternos mesmo depois da morte de uma cria. Os pesquisadores avaliam que situações semelhantes podem ter passado despercebidas porque partos de baleias raramente são observados no mar. A ampliação da capacidade de monitoramento e a recuperação das populações de baleias têm tornado esses estudos mais viáveis, embora ainda não permitam determinar o que os animais compreendem sobre a morte.


