A revista britânica The Economist avaliou que a eleição presidencial brasileira de 4 de outubro oferece pouca perspectiva de mudança na trajetória do país. Em editorial publicado nessa quinta-feira (24), a publicação afirmou que a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) representa uma escolha sombria e classificou os dois candidatos como “deploráveis”.
O texto, intitulado “O Brasil vira as costas para o futuro”, contrapõe o potencial do país ao desempenho de sua economia. Entre os recursos e características destacados estão a Amazônia, as reservas de petróleo, a geração de energia hidrelétrica, a produção agrícola, os minerais de terras raras e uma população de 220 milhões de pessoas.
Apesar dessas condições, a revista afirma que o Brasil está “preso na pista” e que sua economia permaneceu estagnada diante de países semelhantes e da média de crescimento global nas últimas cinco décadas. Na avaliação do editorial, a ausência de expansão mais forte intensifica a disputa entre elites políticas pelo controle dos recursos públicos e alimenta a desesperança entre brasileiros, cenário que favoreceria políticos extremistas.
Críticas aos candidatos
Sobre Lula, o editorial reconhece seu caráter democrático e sua posição favorável ao meio ambiente. Ao mesmo tempo, afirma que o presidente fez pouco para estimular o crescimento, controlar as despesas públicas e promover reformas econômicas. A publicação também menciona o aumento dos gastos com juros da dívida pública.
Flávio Bolsonaro é criticado por questionar a integridade das urnas eletrônicas, negar que a ação humana seja responsável pelas mudanças climáticas e indicar que poderia não reconhecer uma eventual vitória de Lula. O editorial afirma ainda que ele é investigado por supostos vínculos com criminosos violentos, o que o senador nega, e que sua principal proposta é conceder indulto ao pai, condenado em setembro de 2025 a 27 anos de prisão por conspiração.
Para a revista, nenhum dos dois apresenta uma solução crível para problemas considerados centrais: a corrupção enraizada e a expansão incessante dos gastos públicos. O editorial menciona também Renan Santos (Missão), descrito como um candidato libertário combativo. Ele defende reformas estruturais e cortes de gastos, mas, segundo a avaliação, não conseguiu superar as estruturas políticas associadas a Lula e Bolsonaro.
Riscos econômicos e instituições
O texto cita ainda o escândalo do Banco Master, que teria surgido poucas semanas depois da condenação de Jair Bolsonaro e envolvido rapidamente o Supremo Tribunal Federal. A revista afirma que investigações policiais apontaram ligações de cinco dos 11 ministros do tribunal com Daniel Vorcaro, apresentado como mentor do esquema. Para o editorial, o caso ampliou o cinismo da população e pode levar parte dos brasileiros a ignorar a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe e apoiar seu filho.
A publicação considera que uma combinação de aumento da dívida e dos custos de financiamento poderia desencadear uma crise, com piora econômica, desvalorização do real, inflação e recessão. Também ressalta que a Polícia Federal, a imprensa e o corpo diplomático continuam funcionando, enquanto o país mantém mecanismos para enfrentar crises.
Na conclusão, o editorial afirma que o potencial brasileiro pode permanecer em espera por pelo menos mais quatro anos. A eleição, diz o texto, oferece “pouca esperança de uma reviravolta”.


