A ligação que anunciou o Nobel de Medicina de 2026 quase não foi atendida. Karl Deisseroth, neurocientista e professor da Universidade Stanford, não ouviu a chamada feita pelo comitê às 0h27 no horário do Pacífico. Segundos depois, o telefone de sua esposa, Michelle Monje-Deisseroth, também cientista, tocou. Do outro lado, uma pergunta objetiva: “Podemos falar com o Karl?”
O anúncio do prêmio ocorreu na última segunda-feira (5), mas os vencedores costumam ser avisados por telefone pouco antes da divulgação pública, por volta das 11h30 no horário de Estocolmo. Como Deisseroth mora na Califórnia, a comunicação aconteceu durante a madrugada nos Estados Unidos.
A reação ao telefonema
“Fiquei muito surpreso”, afirmou Deisseroth. Ele disse que teve dificuldade para falar e perdeu a capacidade de articular palavras por uns 30 segundos. Michelle, por outro lado, não demonstrou surpresa, segundo o pesquisador.
Deisseroth dividiu o prêmio com Peter Hegemann, da Universidade Humboldt de Berlim, e Georg Nagel, da Universidade de Würzburg, instituições localizadas na Alemanha. O pesquisador atua como professor de Bioengenharia e de Psiquiatria e Ciências Comportamentais na Universidade Stanford.
Em um vídeo compartilhado pelo cientista, ele aparece contando a novidade para suas filhas. Ao comentar a escolha, Deisseroth disse que o reconhecimento contempla uma sequência de descobertas que vai das primeiras explorações de algas a experimentos avançados em neurociência.
O que é a optogenética
A área reconhecida pelo Nobel combina feixes de luz e células nervosas para ativar ou desativar neurônios. Com isso, pesquisadores podem investigar funções cerebrais e controlar mensagens químicas que percorrem os nervos.
O trabalho de Deisseroth e sua equipe envolveu a modificação genética da opsina, parte proteica de um pigmento visual da retina. A proteína foi colocada na superfície de células nervosas de roedores para ser ativada por um pulso de luz azul. Depois, os pesquisadores desenvolveram uma fibra óptica ultrafina e flexível, inserida no cérebro de roedores vivos, para direcionar a luz a células ou circuitos específicos.
Avanços posteriores permitiram ativar a opsina também com luz amarela. Hoje, neurocientistas usam diferentes cores para manipular o comportamento celular sem recorrer à engenharia genética direta.
A equipe de Deisseroth aplicou a técnica no estudo de transtornos cerebrais. Entre os resultados citados pela Universidade Stanford estão a reversão de sintomas de Parkinson em camundongos e a identificação de um circuito relacionado ao desejo de interação social. Os pesquisadores também desencadearam ou inibiram interações entre camundongos fêmeas e induziram ou aliviaram sintomas de depressão em camundongos.
O desafio mencionado é adaptar a optogenética a outros tipos de células, como as do coração e do pâncreas. A técnica também poderá ser combinada com terapia gênica para tratar e restaurar funções motoras em pessoas com paraplegia.
O Nobel de Medicina foi o primeiro prêmio anunciado na segunda-feira (5). Na terça-feira, o Nobel de Física foi concedido ao físico belga Francis Halzen por sua descoberta de neutrinos com alta energia.



