SALINAS — Sacolas, embalagens de alimentos, garrafas e equipamentos de pesca foram encontrados a mais de 3.900 metros abaixo da superfície do Oceano Pacífico. A descoberta foi apresentada em uma pesquisa publicada na revista científica Frontiers in Marine Science, em 16 de setembro, como a primeira evidência documentada de poluição plástica nessa região profunda.
O estudo analisou um trecho de praia de 100 m² próximo a Salinas, no Equador. Pesquisadores da Universidade Sorbonne de Paris, na França, fizeram coletas semanais entre 2019 e 2025 e reuniram mais de 150 Kg de detritos. A média chegou a 570 g de resíduos por coleta. Em mais de 10 visitas, porém, nenhum plástico visível foi encontrado.
Pesca, turismo e resíduos hospitalares
As atividades de pesca foram apontadas como a principal origem do descarte ilegal. Entre os materiais recolhidos estavam redes, linhas, boias e recipientes de graxa. A quantidade de resíduos dessa categoria aumentou nos anos de 2021 e 2024.
Itens ligados ao turismo e ao lazer representaram 45% dos materiais coletados. Também foram encontrados resíduos hospitalares, como seringas, frascos de remédios e máscaras faciais, sobretudo após 2020. Pequenos grânulos e fragmentos indicaram que objetos maiores estavam se partindo em partículas menores.
A pesquisa identificou semelhanças entre os tipos de plástico vistos na praia e os registrados no fundo do oceano. Os materiais, no entanto, apresentavam estados diferentes de degradação. Na superfície, a exposição ao sol, ao calor, ao vento, às chuvas e à ação de humanos e animais terrestres acelerou esse processo. No fundo do mar, sacolas e recipientes de alimentos pareciam relativamente intactos, em razão da pouca luz solar e da menor exposição a essas condições.
Muitas embalagens tinham inscrições em línguas estrangeiras. Para a equipe, o transporte marítimo internacional e o comércio regional podem contribuir para a disseminação da poluição. Correntes oceânicas, ondas e rios também podem ter levado os resíduos até o mar aberto, onde afundaram.
Caranguejos-fantasma-pintados (Ocypode gaudichaudii) foram vistos carregando fragmentos para suas tocas. Os pesquisadores levantaram a possibilidade de que os animais confundam o material com alimento e o ingiram, mas o estudo não investigou se isso ocorre. A equipe defendeu o monitoramento da poluição plástica em áreas costeiras e águas profundas, e não apenas nas praias.


