Pesquisadores analisaram a rede viária do Império Romano, formada por cerca de 300 mil km de rotas que atravessavam a Europa, o Oriente Médio e o norte da África. Integrada a rios e caminhos marítimos, ela constituiu o primeiro sistema de transportes em escala continental do mundo.
A rede se estendia dos desertos do Marrocos e da Arábia até a Escócia e o Oceano Atlântico. As vias permitiam o deslocamento de pessoas, animais, mercadorias e ideias, além de facilitar a circulação de agentes patogênicos. O estudo foi publicado nesta terça-feira (15) na revista Nature Communications e teve a participação dos pesquisadores Tom Brughmans, da Universidade de Aarhus, e Adam Pazout, da Universidade Autônoma de Barcelona.
Como funcionavam as estradas
Alguns trechos eram construídos com pedra britada, argamassa de cal, cascalho e pedras de pavimentação. O tráfego era composto principalmente por pessoas a pé ou montadas em cavalos, burros, mulas e camelos. Animais de carga, carroças e carruagens também circulavam pelas vias.
As estradas tinham uso militar. As legiões romanas as percorriam para responder a ameaças, prestar auxílio a tropas e avançar sobre novos territórios. Elas também ajudaram a difundir ideias, entre elas o cristianismo primitivo. No cotidiano, porém, o principal movimento ocorria entre as casas, os campos e os mercados locais, onde os produtos eram comercializados.
O Fórum Romano abrigava, desde 20 a.C., o Milliarium Aureum, ou Miliário Dourado. Instalado pelo imperador Augusto, o monumento marcava simbolicamente o início das estradas do império. As distâncias rodoviárias eram calculadas a partir dele, mas Roma não ocupava a posição mais central de toda a rede.
A análise indicou que as capitais provinciais estavam muito bem posicionadas nas estradas de seus territórios, o que favorecia a administração e a arrecadação de impostos. Entre elas estavam Ancara, Londres e Corinto.
Roma, Constantinopla e a geografia
Na Península Itálica, Roma era central nas estradas da costa do Mar Tirreno. Quando os pesquisadores consideraram os deslocamentos em toda a península, porém, identificaram como mais central uma estrada que acompanhava o litoral do mar Adriático.
No início do século 4 d.C., Constantino transferiu a capital para Constantinopla, atual Istambul. Situada no ponto de encontro entre Europa e Ásia, a cidade tinha posição mais estratégica para as viagens terrestres. Às margens do Bósforo, ela se conectava ao tráfego entre os dois continentes por meio de balsas que atravessavam o estreito na Antiguidade.
Os engenheiros romanos empregavam técnicas para construir trajetos o mais retos possível. A via Ápia, ao sul de Roma, é um dos exemplos. A topografia, contudo, impunha limites: nas áreas relativamente planas da Bélgica, do norte da França e do vale do Pó, na Itália, as estradas podiam manter linhas mais diretas. Em geral, os romanos não removiam montanhas para abrir caminho.
A rede continuou influenciando os deslocamentos por muito tempo. Muitas estradas permaneceram em uso após o fim do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C., e depois do encerramento do Império Romano do Oriente, conhecido também como Império Bizantino, em 1453. Em várias regiões, elas foram as principais vias de comunicação durante o período medieval, até o desenvolvimento das ferrovias no século 19 e das rodovias no século 20.
Traçados modernos ainda acompanham caminhos antigos. A via Augusta, que ligava Cádiz aos Pireneus, passa sob o Arco de Berà, entre Tarragona e Barcelona, e segue o mesmo percurso da moderna rodovia N-340.


