RIO GRANDE DO SUL — Um estudo baseado em vestígios deixados no corpo de uma toninha documentou uma interação entre a espécie e um tubarão-branco no Atlântico Sul. O animal foi encontrado encalhado no litoral do Rio Grande do Sul, e a análise das lesões permitiu identificar que o ataque ocorreu enquanto ele ainda estava vivo.
A toninha, espécie Pontoporia blainvillei, tinha três conjuntos de marcas de mordida. Uma delas estava na nadadeira dorsal e apresentava sinais de hemorragia. O formato e o tamanho dos ferimentos, examinados junto com as características dos dentes, foram compatíveis com a ação de um tubarão-branco, Carcharodon carcharias.
Os pesquisadores estimaram que o predador tinha entre 3,6 e 3,8 metros de comprimento e pesava entre 400 e 490 kg. A investigação foi realizada pela PRÓ-SQUALUS, Organização para a Pesquisa e a Conservação de Esqualos no Brasil, e pela Universidade Federal do Ceará (UFC). O caso foi descrito como a primeira evidência de interação entre as duas espécies. Os detalhes foram publicados no início de agosto na revista Wildlife Research.
Marcas como evidência científica
A identificação foi feita por meio de análise morfológica, método que compara forma e dimensão das estruturas. Os pesquisadores avaliaram a geometria das mordidas, a disposição dos ferimentos e elementos da dentição para verificar qual predador poderia ter causado os danos.
As medições foram processadas no TPSdig, programa usado para comparar formas biológicas. Com a ferramenta, foi possível estimar as dimensões relacionadas ao ataque e verificar a compatibilidade entre as marcas encontradas e os dentes do tubarão-branco.
Em ambientes marinhos, esse tipo de análise permite investigar acontecimentos que raramente são observados diretamente. O corpo do animal pode preservar sinais de doenças, conflitos entre espécies, contato com atividades humanas e outras causas de morte. Neste caso, o conjunto das evidências levou à conclusão de que a toninha havia sido atacada pelo tubarão-branco, e não apenas encontrada morta após uma interação sem agressão.
O registro amplia o conhecimento sobre a presença das duas espécies e sobre suas relações ecológicas, mas não permite medir a frequência desse tipo de ataque nem seu impacto sobre a população de toninhas. Como predador de topo, o tubarão-branco ocupa posição elevada na cadeia alimentar marinha. Identificar suas presas e os ambientes em que ocorrem essas interações ajuda a compreender como populações e comunidades marinhas se organizam no Atlântico Sul.


