Um conjunto de 14 contos que Ricardo Guilherme Dicke considerava perdido foi recuperado e publicado em Música de Mortos Suaves. Os textos foram localizados por Rodrigo Simon de Moraes no arquivo pessoal do escritor e revelam, ainda no início de sua trajetória, elementos que marcariam sua obra: experimentação formal, atmosfera onírica, personagens solitários e uma presença constante da morte e da natureza.
Dicke (1936-2008) nasceu na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, e passou a viver em Cuiabá aos seis anos. Embora tenha construído uma obra extensa, permanece pouco conhecido no sistema literário brasileiro. Para Hilda Hilst, sua prosa tinha uma “oleosidade fascinante”. Moraes, pesquisador na Universidade de Princeton, resume o problema: “Ele acaba esquecido”.
Um escritor distante dos centros editoriais
A distância entre Cuiabá e os principais centros culturais, somada ao tamanho de seus romances, dificultou a circulação de seus livros. Dicke viveu no Rio de Janeiro nos anos 1960, quando tentou se dedicar exclusivamente à escrita, mas voltou para Cuiabá. Em 1967, recebeu menção honrosa no Prêmio Walmap por Deus de Caim, seu primeiro livro. O júri reunia Guimarães Rosa, Jorge Amado e Antonio Olinto.
Entre os romances escritos durante o período carioca estavam Caieira e Madona dos Páramos. Publicado originalmente em 1981, Madona dos Páramos recebeu o Prêmio Ficção de Brasília, da Fundação Cultural do Distrito Federal. A obra narra a fuga de 12 homens pelo sertão do Centro-Oeste, em uma jornada marcada pela violência do próprio grupo e pela busca de uma terra de abundância associada à árvore Figueira-Mãe.
A extensão do romance também representava um obstáculo material. A edição mencionada tem 518 páginas, e a reprodução e o envio de manuscritos volumosos eram difíceis. Uma carta de Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, recusou Orcus e sugeriu que o livro fosse reduzido. O editor, porém, reconhecia que Dicke desejava manter a dimensão da obra.
Os textos encontrados no arquivo
Moraes localizou os contos durante sua pesquisa de doutorado em teoria e história da literatura na Unicamp, defendida em 2021. Ele examinou 50 quilos de papéis do arquivo de Dicke depois de entrar em contato com Ariadne, filha do escritor. Inicialmente interessado nas pinturas do autor, o pesquisador soube da existência de um conjunto de documentos e levou o material para análise.
Entre os papéis havia um caderno de espiral, com páginas manuscritas quase ilegíveis, além de versões datilografadas. A comparação entre os dois conjuntos permitiu identificar que os contos haviam sido preparados para publicação. Duas histórias do caderno não entraram no volume porque já tinham sido publicadas. Uma delas, “Tríptico de Frei Dámaso”, aparece modificada em Caieira e foi incluída na coletânea por preservar a forma original do texto.
Dicke acreditava que os cupins, comuns durante a temporada de chuvas do Mato Grosso, tinham destruído os contos. Em uma entrevista de 1994, lamentou a perda como uma tragédia pessoal. O prefácio de Música de Mortos Suaves considera possível que o escritor tenha morrido sem saber que aqueles textos haviam sobrevivido.
A linguagem dos contos
Os textos provavelmente foram escritos antes de 1967, antes da publicação de Deus de Caim. Eles já apresentam uma linguagem carregada de imagens e construções incomuns. Em “Vigília”, a chuva é associada ao desespero e o cemitério se transforma em uma floresta de cruzes. Em “Entardecer, Domingo”, o narrador acompanha um personagem solitário e usa expressões que aproximam o português do espanhol.
Essa presença do espanhol pode estar relacionada ao casamento de Dicke com a uruguaia Adélia Boskov Todorov. Em cartas dirigidas a ela, o escritor misturava os dois idiomas. Moraes também encontrou uma tradução, feita por Dicke, de um conto do venezuelano Rómulo Gallegos.
A coletânea indica que a prolixidade associada aos romances do autor não impedia a criação de textos breves. Pelo contrário, os contos condensam temas e procedimentos que reapareceriam em sua produção posterior, como a solidão, a morte, a natureza e a percepção deslocada da realidade. A recuperação amplia, assim, o acesso a uma etapa pouco conhecida da obra de Dicke.
O escritor morreu em 2008 sem acompanhar uma nova edição de Madona dos Páramos, romance que considerava seu melhor trabalho. Está enterrado no Cemitério da Piedade, em Cuiabá, onde brincava na infância. No túmulo, uma inscrição reproduz uma frase de Cerimônias do Esquecimento: “Deus é um grande mágico que fabrica realidades”.


