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Economia

Gastromotiva completa 20 anos com foco em formação, fome e desperdício

Organização formou cerca de 15 mil pessoas, serviu mais de 7,1 milhões de pratos e resgatou 650 toneladas de alimentos.

Gastromotiva completa 20 anos com foco em formação, fome e desperdício

A Gastromotiva completou 20 anos de atuação em agosto deste ano com uma trajetória que combina formação profissional, combate à fome e reaproveitamento de alimentos. Nesse período, a organização formou cerca de 15 mil pessoas, serviu mais de 7,1 milhões de pratos e retirou 650 toneladas de alimentos do ciclo do lixo.

À frente da iniciativa, o chef curitibano David Hertz defende que a alimentação deve ser tratada como uma frente ampla, ligada a temas como clima, biodiversidade, cultura, economia, saúde e desenvolvimento dos territórios. “Aprendemos que comida é capaz de transformar”, afirma Hertz.

A organização começou como um bufê-escola e, depois, ampliou suas atividades para programas de educação, capacitação profissional, segurança alimentar, geração de oportunidades e transformação dos sistemas alimentares. A iniciativa foi fundada por Hertz e Uridéia Andrade, que se conheceram na favela do Jaguaré, em São Paulo.

Da formação profissional às políticas públicas

A origem do projeto está ligada à experiência de Hertz no Cozinheiro Cidadão, também no Jaguaré. Foi nesse contexto que ele conheceu a Artemísia, incubadora de negócios de impacto com a qual desenhou o conceito da Gastromotiva. A inspiração incluía os negócios sociais e de impacto do economista de Bangladesh Muhammad Yunus, vencedor do Nobel da Paz de 2006.

A Gastromotiva iniciou suas atividades em um período marcado pelo Fome Zero, pelo Bolsa Família e pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), considerados pilares daquele momento por Carol Pires, coordenadora de Projetos da organização.

Um dos projetos mais conhecidos da trajetória foi o Refettorio Gastromotiva, hub de gastronomia social e restaurante-escola que funcionou por dez anos na Lapa, no Rio de Janeiro. O espaço reunia aprendizes na cozinha, pessoas em situação de rua à mesa e voluntários de diferentes profissões no atendimento.

De acordo com Hertz, o modelo contribuiu para a criação de políticas da Secretaria de Segurança Alimentar de Curitiba. Entre elas está o Mesa Solidária, que mantém cinco restaurantes-escola, atua em restaurantes populares e encaminha alunos para o mercado de trabalho.

No Ceará, a Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco foi criada em 2018 com inspiração na Gastromotiva. A instituição transformou a proposta em uma política permanente de formação, valorização da cultura alimentar, inclusão social e geração de oportunidades.

Cozinhas Solidárias e expansão internacional

A atuação também alcançou outros países. No Timor-Leste, a organização ProEma, criada pela brasileira Simone Barbosa Assis, reúne restaurante-escola, dois hotéis, bufês, uma padaria e uma empresa de chocolate. Os negócios empregam jovens e mulheres em situação de vulnerabilidade, incluindo vítimas de violência acolhidas por programas do governo e da própria instituição.

Durante a pandemia, a Gastromotiva criou as Cozinhas Solidárias, que chegaram a funcionar em 143 pontos no Brasil. A estrutura é montada com pessoas ou entidades já atuantes nas comunidades. A organização oferece formação, insumos, equipamentos, embalagens e apoio logístico, enquanto os cozinheiros preparam e distribuem as refeições nas próprias regiões.

O programa começou no Sudeste e avançou para a Amazônia e o Centro-Oeste, mobilizando ex-alunos e voluntários em locais onde, segundo Carol Pires, o poder público não chegava. Mais de 116 mil voluntários participaram da rede, em 40 cidades brasileiras e na Cidade do México.

Atualmente, a Gastromotiva mantém sete dessas cozinhas, é parceira de outras iniciativas e acompanha a reprodução do modelo em diferentes partes do país. Na Amazônia, trabalha com o Instituto Aquaricada no Projeto Aviários, criado a partir de uma demanda de comunidade vulnerável.

A estratégia, explica Hertz, combina escuta das comunidades, coleta de dados e colaboração com o governo. O objetivo é associar segurança alimentar e adaptação climática, com garantia de proteína durante períodos de seca.

Prioridades para as próximas duas décadas

A continuidade das políticas de combate à fome aparece como uma das principais lições da trajetória. Para Carol Pires, ações públicas consistentes produzem resultados, enquanto retrocessos têm efeitos imediatos e mensuráveis.

A coordenadora afirma que o perfil dos brasileiros mais vulneráveis permaneceu semelhante ao longo do período: mulheres chefes de família, população preta e parda e moradores das regiões Norte e Nordeste. Esses grupos estarão entre as prioridades da Gastromotiva nas próximas duas décadas, junto de novas configurações da fome.

O debate também envolve a relação entre produção, acesso e desperdício. Ricardo Abramovay, sociólogo da Universidade de São Paulo, afirmou durante o evento comemorativo da organização, no Rio de Janeiro, que produzir mais alimentos não é suficiente para enfrentar os problemas atuais.

Para Abramovay, a humanidade já produz mais alimentos do que o necessário para uma alimentação saudável. Por isso, as políticas públicas deveriam considerar o conhecimento sobre esses alimentos e sobre a forma como são produzidos. A discussão proposta pela Gastromotiva, nesse sentido, é distinguir excesso de abundância e repensar a maneira como a sociedade produz e compartilha comida.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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