A eleição não determina apenas quem ocupará os cargos de presidente, governador, senador e deputado. O voto também ajuda a definir quais prioridades, políticas públicas e visões sobre o papel do Estado orientarão decisões com impacto sobre a agricultura familiar e sobre a população urbana nos próximos quatro anos.
Para o setor, estão em debate temas como crédito, assistência técnica, comercialização, habitação, aposentadoria, produção de alimentos e enfrentamento das mudanças climáticas. Esses assuntos também chegam às cidades por meio dos preços, da oferta e da qualidade dos alimentos, da saúde e da dinâmica econômica dos territórios.
O que observar nos candidatos
A professora e pesquisadora Cátia Grisa, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), afirma que a análise das eleições deve ir além da disputa entre nomes. Especialista em sociologia rural, políticas públicas e desenvolvimento rural, ela avalia que o resultado das urnas terá efeitos sobre o desenvolvimento rural, a segurança alimentar e as políticas destinadas à agricultura familiar.
“Esse é um momento bastante decisivo”, afirma Cátia. A pesquisadora participou recentemente, junto à Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Rio Grande do Sul (FETRAF-RS), da elaboração do livro Agricultura Familiar em Transformação: realidade da agricultura familiar na base da FETRAF-RS, lançado em julho.
No Executivo, a atenção deve se voltar ao espaço reservado à agricultura familiar na estrutura dos governos e ao volume de recursos destinado ao setor. No Legislativo, entram em discussão leis, projetos, emendas e mudanças capazes de afetar o cotidiano das famílias agricultoras.
Por isso, Cátia recomenda a leitura dos programas de governo e a análise da trajetória dos candidatos. Entre os pontos a observar estão propostas para geração de renda, assistência técnica e extensão rural, crédito, infraestrutura, comercialização e agroindustrialização. Também é possível verificar se as candidaturas apresentam medidas específicas para a agricultura familiar ou se tratam apenas da agricultura de forma geral.
A avaliação inclui ainda temas com impacto sobre a produção e o abastecimento. Mudanças climáticas, prevenção, adaptação e aumento da capacidade de resistência das famílias agricultoras são questões relevantes, especialmente diante dos eventos climáticos que atingiram a produção rural no Rio Grande do Sul nos últimos anos.
A segurança alimentar e nutricional amplia o alcance desse debate. Para Cátia, é necessário considerar quem produz os alimentos e de que maneira as políticas públicas aproximam agricultores e consumidores. Compras públicas, alimentação escolar, feiras e iniciativas voltadas à conexão com os mercados consumidores estão entre as possibilidades mencionadas por ela.
Efeitos que chegam às cidades
A produção da agricultura familiar interfere na oferta e nos preços dos alimentos, na diversidade da alimentação e no acesso a produtos considerados mais saudáveis. Por isso, políticas voltadas ao campo também dizem respeito a quem vive nas cidades.
“Um dos grandes desafios que as cidades hoje enfrentam é como assegurar a oferta de alimentos saudáveis em todo o território”, afirma a pesquisadora. Na avaliação dela, aproximar os locais de produção e consumo pode diminuir distâncias, perdas e desperdícios, além de gerar renda nos próprios territórios e fortalecer as economias locais.
A aproximação entre produtores e consumidores também envolve aspectos ambientais e culturais. Cadeias mais curtas podem reduzir deslocamentos e as emissões associadas ao transporte de alimentos. A valorização da produção local, por sua vez, contribui para preservar hábitos e identidades alimentares.
Esse conjunto de questões amplia a pauta da agricultura familiar para além da renda de quem produz. Alimentação, saúde, meio ambiente e desenvolvimento dos territórios também passam a fazer parte da discussão sobre as escolhas eleitorais.
O papel do Estado e a representação política
As políticas públicas aparecem em várias etapas da atividade rural, como crédito, seguro agrícola, assistência técnica, comercialização, agroindustrialização, infraestrutura e regularização sanitária. Também estão presentes em serviços e programas ligados ao SUS, à educação, à segurança e à alimentação.
A eleição envolve, portanto, diferentes concepções sobre a atuação do Estado. Alguns candidatos defendem maior presença estatal na formulação e na execução de políticas públicas; outros propõem reduzir essa atuação. Para Cátia, essa diferença tem efeitos sobre os serviços, programas e políticas que chegam à população.
O coordenador geral da FETRAF-RS, Douglas Cenci, relaciona a participação eleitoral ao funcionamento do sistema de representação política. “Votar faz parte do compromisso nosso com a democracia”, afirma. Segundo ele, as eleições permitem escolher representantes, avaliar mandatos e substituí-los quando a população considerar necessário, ainda que o sistema tenha limitações.
Douglas também defende que o eleitor analise as posições do candidato e do partido ao qual ele está vinculado. Entre as pautas relevantes para as famílias agricultoras, ele cita aposentadoria, habitação, crédito e outras ações públicas relacionadas às condições de vida e produção no campo.
Para a Federação, agricultores e agricultoras familiares devem verificar se os candidatos estão alinhados com a manutenção e o fortalecimento das políticas públicas consideradas importantes para o setor. A análise, porém, não se restringe à categoria: decisões sobre a agricultura também repercutem na alimentação, nos preços, na saúde, na economia local e no desenvolvimento dos territórios.
Conhecer os programas eleitorais, acompanhar a trajetória dos candidatos e compreender suas posições sobre o papel do Estado oferece elementos para uma escolha que não dependa apenas das declarações feitas durante a campanha. O voto é individual, mas as decisões tomadas pelos representantes têm efeitos coletivos sobre produção, renda, direitos, permanência no campo e acesso a alimentos.



