A indústria têxtil brasileira deve enfrentar novas transferências de fábricas para o Paraguai após a sanção que encerrou a cobrança adicional sobre produtos importados de até US$ 50. A medida foi assinada em 10 de setembro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nos últimos anos, 200 empresas abriram unidades no país vizinho.
Edmundo Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (Abvtex), afirma que a mudança atinge empresas que já avaliavam deixar o Brasil por causa da carga tributária e dos custos com mão de obra. Segundo ele, operar no Paraguai pode reduzir as despesas em cerca de 30%, principalmente em razão desses dois fatores.
A Lupo, de Araraquara, já instalou um parque fabril em Ciudad del Este, com investimentos de R$ 30 milhões. A catarinense Karsten, do segmento de cama, mesa e banho, também inaugurou uma unidade em Guazú. As duas empresas estão entre as que avançaram com a transferência de operações.
Pressão sobre empregos e investimentos
Lima diz que outras companhias, sobretudo as instaladas no Sul e no Sudeste e mais próximas da fronteira, podem seguir o mesmo caminho. Para o executivo, a consequência é o deslocamento de postos de trabalho para fora do Brasil. “A gente está exportando emprego, enquanto deveríamos gerar no Brasil”, afirmou.
A Abvtex representa empresas como Renner, Riachuelo e C&A. A entidade também estima que a concorrência com varejistas asiáticos e o comércio eletrônico internacional deve afetar investimentos em lojas físicas. No começo do ano, havia uma expectativa de aporte de R$ 100 bilhões no varejo e de criação de empregos, mas muitas empresas passaram a aguardar uma avaliação mais clara dos efeitos da mudança.
O setor de vestuário registrou queda de 8,2% na atividade econômica em julho, na comparação com o mesmo período do ano passado. A retração ocorreu depois da Medida Provisória assinada por Lula em maio. De acordo com Lima, esse resultado coloca em risco mais de 800 mil empregos diretos.
O segmento de moda e confecção emprega 2,3 milhões de trabalhadores no Brasil, considerando indústria e varejo. A redução de custos, segundo o dirigente, tende a atingir primeiro a mão de obra quando a atividade econômica diminui e as empresas buscam equilíbrio financeiro.
Arrecadação e próximos passos
No ano passado, o imposto de importação arrecadou cerca de R$ 5 bilhões para a União. Para 2026, a previsão era de R$ 7 bilhões. A avaliação da Abvtex é que a perda não ficará restrita ao governo federal: com mais compras em plataformas internacionais e menos vendas nas lojas brasileiras, as varejistas nacionais também recolherão menos tributos.
Lima prevê redução nas vendas em períodos importantes do varejo de moda, como Black Friday, Dia das Crianças e Natal. Mais de 90% das vendas do setor de moda ficam abaixo de R$ 250, segundo ele.
A associação pretende pressionar o Planalto e o Legislativo até a primeira revisão da medida, prevista para três meses. Também deve cobrar fiscalização mais rigorosa sobre a qualidade dos produtos estrangeiros. Depois dessa análise, o governo se comprometeu a avaliar os impactos econômicos a cada seis meses.



