SÃO PAULO — O Mercado Livre começará a vender medicamentos com prescrição em sua plataforma, incluindo antibióticos e canetas emagrecedoras. A empresa também abrirá espaço para lojas virtuais de redes de farmácias, inicialmente em São Paulo e na região metropolitana.
A operação será ampliada cerca de um ano depois de a companhia comprar uma pequena farmácia em São Paulo e iniciar a venda de medicamentos sem receita. Três redes devem inaugurar suas lojas virtuais no marketplace em outubro, mas os nomes ainda não foram divulgados. A expectativa é chegar a pelo menos 20 bandeiras conectadas à plataforma até o fim do ano.
“Esse um ano de piloto de farma foi surpreendente, tanto nas compras como na busca por produtos”, disse Fernando Yunes, vice-presidente executivo de commerce na América Latina e head da operação do Mercado Livre no Brasil. Segundo ele, a conversão dos produtos farmacêuticos foi superior à de outras categorias da plataforma, o que levou a empresa a avançar no segmento.
Venda com receita e entregas rápidas
No modelo anunciado, a receita será encaminhada a um farmacêutico do próprio Mercado Livre, responsável pelas conferências. Depois dessa etapa, o produto seguirá para a área de logística e será enviado ao consumidor.
A empresa afirma que sua estratégia não é competir diretamente com as farmácias, mas permitir que elas vendam no marketplace. Yunes comparou o plano às parcerias com Casas Bahia e Magazine Luiza, que passaram a comercializar produtos no Mercado Livre. “A ideia não é competir com elas, e sim, tê-las vendendo no Mercado Livre”, afirmou.
A venda de medicamentos com e sem prescrição começará em São Paulo e na região metropolitana, com expansão gradual para outras praças. A categoria também estará incluída na nova modalidade de entregas em até 60 minutos, que já está sendo testada em alguns bairros de São Paulo.
A possibilidade de comercializar medicamentos com receita em plataformas digitais pode enfrentar questionamentos regulatórios. Yunes mencionou eventuais barreiras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas disse que, na avaliação do Mercado Livre, regras recentes sobre a instalação de farmácias em supermercados e posicionamentos da agência dão sustentação ao modelo.
Reação das ações e expansão da estrutura
As ações de redes de farmácias listadas fecharam o pregão com queda. Os papéis da Pague Menos recuaram 8%, enquanto RD Saúde e Panvel caíram 5,38% e 4,90%, respectivamente. Na Nasdaq, as ações do Mercado Livre terminaram o dia em baixa de 2,51%, deixando a empresa avaliada em US$ 88,9 bilhões. No aftermarket, o recuo era de 0,14%.
A logística também faz parte do pacote de expansão. A companhia informou que já ocupa 3,3 milhões de metros quadrados e pretende abrir 20 grandes centros até o fim de 2026. Com isso, chegará a 72 estruturas, incluindo operações de fulfillment, cross-docking e receiving centers.
Uso de inteligência artificial
O Mercado Livre também ampliou o uso de inteligência artificial entre os vendedores cadastrados. Roberta Donato, vice-presidente de marketplace da empresa, afirmou que mais de 30 mil pequenas e médias empresas já utilizam o assistente de vendas. Na área de anúncios, mais de 10 mil sellers recebem semanalmente sugestões para melhorar campanhas, e 30% aceitam as propostas.
A companhia informou que investiu US$ 2,3 bilhões em tecnologia em 2025. A empresa tem mais de 20 mil desenvolvedores na América Latina, e parte dos recursos foi destinada à inteligência artificial aplicada a compras, pagamentos, crédito, prevenção a fraude e ferramentas para vendedores.
As iniciativas fazem parte do plano de investimentos de R$ 57 bilhões no Brasil em 2026. Para comparação, o Mercado Livre informou que havia aportado R$ 1 bilhão em 2018. Yunes também disse que, nos últimos 10 anos, o GMV da empresa foi multiplicado por dez e que o TPV do Mercado Pago passou de R$ 6 bilhões para R$ 340 bilhões. Na avaliação do executivo, a penetração do comércio eletrônico no Brasil ainda está entre 17% e 18%, o que mantém espaço para a expansão do grupo.


