O aquecimento dos oceanos já produz efeitos econômicos em diferentes regiões, com redução de sardinhas em águas marroquinas, degradação de recifes de coral e interrupções em reatores nucleares causadas pela proliferação de águas-vivas. O fenômeno também ameaça áreas de pesca, abastecimento de alimentos, turismo e comunidades costeiras.
Tom Pickerell, especialista em biologia marinha e diretor do programa de oceanos do World Resources Institute (WRI), afirmou que “o calor prolongado nos oceanos não é apenas um problema ambiental”. Para ele, a elevação das temperaturas pressiona atividades econômicas e infraestruturas energéticas, além de favorecer fenômenos meteorológicos extremos.
O impacto sobre alimentos e energia
A redução das populações de sardinha em águas marroquinas mais quentes levou à proibição das exportações e provocou escassez no mercado europeu, segundo Pickerell. Em outras áreas, ondas de calor marítimas podem resultar no fechamento de regiões de pesca por causa de doenças, da mortalidade de espécies ou do deslocamento dos peixes para águas mais frias.
Kathryn Smith, da Associação Britânica de Biologia Marinha, afirmou que essas situações podem custar milhões ou bilhões de dólares às comunidades afetadas e pressionar os preços dos alimentos. O aumento da temperatura também prejudica os recifes de coral, que são fundamentais para o ecossistema marinho e absorvem carbono. A degradação desses ambientes pode afastar turistas e comprometer praias que dependem dessa atividade.
A expansão térmica da água eleva o nível do mar e ameaça nações insulares vulneráveis no Pacífico e no Índico. O calor ainda intensifica ondas que fragilizam os corais e agrava eventos extremos, como chuvas torrenciais e ciclones. Na França, a proliferação de águas-vivas esteve ligada recentemente à paralisação de reatores nucleares.
Recordes e perspectiva climática
Em agosto, a temperatura média dos oceanos, sem as regiões polares, chegou a 21,07ºC, igualando o recorde de março de 2024, informou o observatório europeu Copernicus. No hemisfério norte, o verão de 2026, entre junho e agosto, foi o mais quente desde 1993, conforme o Copernicus Marine Service.
O resultado foi associado especialmente ao El Niño, cujo episódio atual se apresenta como intenso, em combinação com o aquecimento global provocado pela atividade humana. Zachary Labe, climatologista do Climate Central, disse que a mudança climática é o motor do calor recorde e que os oceanos passaram por 100 dias de temperaturas recordes para esta época do ano.
A avaliação usa dados sobre a temperatura da superfície dos oceanos compilados pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), alguns ainda preliminares. Labe prevê que os recordes de temperatura na atmosfera e nos oceanos continuem pelo menos até 2027.
A aceleração das políticas de combate às mudanças climáticas aparece, para os cientistas, como uma das poucas respostas imediatas. Claire Bergin, pesquisadora da Universidade de Maynooth, na Irlanda, observou que a adaptação da vida marinha é limitada. O tema estará entre os principais da COP31, reunião climática da ONU marcada para novembro, em Antália, sob presidência conjunta da Turquia e da Austrália.



