A Polícia Federal afirma que Daniel Vorcaro soube antecipadamente da operação Compliance Zero e tentou deixar o país antes de ser preso. O relatório, tornado público nessa quinta-feira (10) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, aponta que o ex-banqueiro acionou sua rede de contatos, buscou informações sobre o juiz responsável pelo inquérito e organizou deslocamentos horas antes da primeira fase da operação, deflagrada entre 17 e 18 de novembro de 2025.
Segundo a PF, Vorcaro fugiu no dia 17 de novembro de 2025, mas foi detido preventivamente no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando se preparava para embarcar em um voo internacional. Ele pretendia viajar para Malta e, de lá, seguir para Dubai, onde tentaria negociar a venda do Master a investidores estrangeiros.
Contatos antes da prisão
Em uma anotação de 16 de novembro de 2025, Vorcaro registrou uma conversa na qual perguntava se uma pessoa tinha proximidade com Ricardo Soares Leite, juiz da 10ª Vara Federal Criminal, responsável por autorizar medidas contra ele.
No dia seguinte, o advogado Walfrido Warde retomou o contato com o ex-banqueiro e pediu que ele telefonasse para tratar de um assunto importante. A partir daí, houve uma sequência de chamadas, mensagens e orientações sobre horários, deslocamentos e um possível voo saindo do Aeroporto de Congonhas. A PF relaciona esse comportamento à percepção de que medidas judiciais seriam adotadas naquele mesmo dia.
O relatório registra que Vorcaro compartilhou com o advogado informações sobre a investigação e recebeu dele uma minuta de petição dirigida à 10ª Vara da Seção Judiciária do Distrito Federal. A corporação sustenta que os dois coordenaram a iniciativa para apresentar uma justificativa formal enquanto o investigado já teria conhecimento da ação policial.
A PF também afirma que Vorcaro divulgou, antes da prisão, informações sobre uma suposta venda do Master ao grupo Fictor. A operação seria barrada pelo Banco Central. Para os investigadores, a divulgação pode ter sido usada como justificativa para afastar medidas contra o ex-banqueiro, embora o relatório registre essa possibilidade como uma questão a ser avaliada.
Indícios apontados pela corporação
Durante as conversas com o advogado, Vorcaro afirmou: “To preocupado”. A PF interpreta a mensagem como evidência do estado de apreensão demonstrado nas horas anteriores, marcado por tentativas repetidas de contato e cobranças por atualizações sobre a petição.
A corporação diz ainda que o ex-banqueiro tinha acesso a informações sobre policiais, procuradores, servidores do Ministério Público Federal, integrantes do Banco Central e o juiz responsável pelo procedimento sigiloso. “Vorcaro tomou ciência prévia da operação policial”, afirma o relatório.
Para a PF, o conjunto de registros indica um padrão de obtenção e uso de dados sigilosos provenientes de diferentes estruturas institucionais. A corporação relaciona esse quadro à hipótese de que Vorcaro se preparava para fugir e tinha conhecimento de que medidas judiciais seriam tomadas contra ele.
O Banco Master teve a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, data da deflagração da Compliance Zero. Vorcaro voltou a ser preso pela PF em 4 de março de 2026, em uma fase posterior da operação, quando o caso já estava sob a guarda do Supremo Tribunal Federal.


