A inteligência artificial foi colocada no centro da reunião entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder chinês, Xi Jinping, realizada nesta quinta-feira, 24 de setembro, na Casa Branca. O encontro foi a segunda reunião de cúpula entre os dois líderes em quatro meses e ocorreu após meses de tensão diplomática.
Trump recebeu Xi com um aperto de mão prolongado e destacou a importância do diálogo entre as duas maiores potências globais. O presidente americano afirmou: “Este é um encontro histórico, um momento para mostrar ao mundo que podemos trabalhar juntos”. Xi respondeu que a cooperação entre os dois países é essencial para a estabilidade global e disse estar no encontro para fortalecer a parceria.
A cordialidade pública não eliminou os pontos de atrito. Taiwan, a guerra comercial e as restrições americanas ao acesso chinês a tecnologias estratégicas continuam entre os temas delicados da relação bilateral. A discussão sobre Taiwan, considerada a questão mais sensível para a China, deve ocorrer de forma reservada.
Antes da cúpula, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, informou que negociadores americanos e chineses haviam concordado, na quarta-feira, 23, em estender a trégua comercial até 10 de janeiro. Nenhum dos assuntos mais sensíveis, porém, é considerado próximo de uma solução imediata.
Taiwan e a tentativa de reaproximação
Durante uma visita a Pequim em maio, Trump fez declarações sobre Taiwan que, segundo o texto, enfraqueceram o apoio dos Estados Unidos à ilha, reivindicada pela China. Naquele período, Taiwan negociava com os americanos uma compra de armas. Depois de uma advertência de Xi, Trump suspendeu temporariamente a venda como parte de uma estratégia de descongelamento diplomático.
O encontro ocorre enquanto os dois países enfrentam desafios internos e externos e disputam influência sobre o desenvolvimento da inteligência artificial. Trump afirmou antes da reunião que pretendia discutir o tema com Xi, mas não indicou mudanças profundas na forma como os Estados Unidos regulam a tecnologia. Para o presidente americano, “A superinteligência é o futuro, e vamos liderar esse futuro”.
Xi tem defendido o uso da inteligência artificial como instrumento de desenvolvimento nacional e estabilidade política. Também afirmou que a competição entre os países deve permanecer dentro de limites e ser uma corrida em que ambos avancem, e não uma disputa com apenas um vencedor. Bessent sugeriu ainda que os líderes poderiam anunciar uma linha direta, chamada de diálogo sobre IA, para tratar de riscos de segurança.
Estratégias diferentes para a tecnologia
A estratégia americana prioriza a criação da inteligência artificial mais poderosa do mundo no menor tempo possível. A premissa predominante no governo e nas empresas dos Estados Unidos é que o país que alcançar primeiro a superinteligência poderá definir padrões globais e dominar as próximas décadas nos campos econômico e militar.
Os Estados Unidos mantêm uma vantagem tecnológica de pelo menos seis meses na corrida global por IA, conforme análises recentes mencionadas no texto. O país concentra quase três quartos da capacidade computacional de IA do planeta, conta com mais de 5.400 data centers e reúne empresas que produzem a maior parte dos modelos de fronteira, como GPT e Claude. A China, por sua vez, enfrenta menor acesso a hardware de ponta e depende de alternativas domésticas menos potentes.
A expansão americana envolve investimentos de grande escala. Centros de dados e infraestrutura relacionada à inteligência artificial devem receber US$ 10,3 trilhões entre 2025 e 2032, segundo estimativas da Brookings Institution. O valor equivale a uma média de 3,6% do Produto Interno Bruto por ano.
A tecnologia também foi associada à criação de mais de 750 mil empregos nos Estados Unidos entre 2023 e 2026, conforme estimativas do LinkedIn. Até julho deste ano, a construção de centros de dados privados recebeu US$ 37 bilhões, ajustados sazonalmente, cerca de US$ 9 bilhões acima do registrado nos primeiros sete meses do ano passado. No mesmo período, os gastos privados com construção em outros segmentos ficaram aproximadamente US$ 46 bilhões abaixo dos níveis do ano anterior.
A valorização ligada à IA elevou as participações em ações e fundos mútuos nos Estados Unidos para US$ 63 trilhões no segundo trimestre, segundo o Federal Reserve, quase o dobro do valor do final de 2022. Os investimentos de capital de Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft e Oracle podem chegar a US$ 4,2 trilhões nos quatro anos encerrados em 2029, de acordo com a FactSet. Parte crescente desse movimento é financiada por dívida, o que amplia os riscos caso haja uma desaceleração abrupta.
O modelo chinês
A China segue uma estratégia diferente. Além de desenvolver modelos avançados, o país pretende integrar a inteligência artificial à economia e aos diferentes níveis do Estado. O 15º Plano Quinquenal, divulgado em março, menciona a tecnologia 52 vezes, cinco vezes mais que o plano anterior, e dedica um capítulo ao poder computacional. A meta é incorporar IA em 90% da economia até 2030.
O planejamento responde a dificuldades internas, como o envelhecimento da população, o desemprego juvenil de 19%, a crise imobiliária prolongada e a dependência de chips inferiores aos produzidos pela Nvidia. Autoridades chinesas também demonstram preocupação com possíveis guerras cognitivas e campanhas de desinformação capazes de ameaçar a segurança política e ideológica.
Ao mesmo tempo, a China tem vantagens estruturais. O país deve acrescentar quase seis vezes mais capacidade de geração elétrica que os Estados Unidos nos próximos cinco anos, controla quase todos os minerais essenciais para o hardware de IA e já supera os americanos na implantação de robôs industriais.
Modelos chineses de código aberto, como Kimi K3, Qwen3.8-Max, GLM-5.3 e DeepSeek, ganharam espaço por serem baratos e amplamente utilizados. O país também avança em carros autônomos e drones, enquanto a DJI domina mais de 70% do mercado mundial.
A cúpula, portanto, combina uma tentativa de reaproximação diplomática com a disputa pela liderança tecnológica. Por trás das declarações de cordialidade, Estados Unidos e China mantêm estratégias diferentes para definir o papel da inteligência artificial na economia, na segurança e na ordem mundial das próximas décadas.



