PARIS — O papa Leão 14 iniciou nesta sexta-feira (25), em Paris, sua primeira visita oficial à França. No discurso de abertura, o pontífice alertou para os riscos da inteligência artificial e afirmou que é necessário preparar as pessoas para avaliar eticamente o avanço da tecnologia.
“Se quisermos evitar perder nossa humanidade em meio a um paraíso de máquinas que invade e condiciona nossa vida cotidiana, há uma necessidade urgente de educação para o discernimento ético”, disse Leão 14.
A fala ocorreu no Palácio do Eliseu, durante um encontro com o presidente Emmanuel Macron e outros políticos. O papa também reafirmou a oposição da Igreja Católica à morte assistida e à gestação por substituição, que classificou como desvios da ciência quando não são orientados pela consciência. A França criou, dois meses antes, um direito legal à morte para pessoas com doenças incuráveis, após anos de debate. Leão 14 não citou diretamente a legislação.
O pontífice disse que a proteção do direito à vida é a base dos demais direitos humanos e mencionou riscos associados à manipulação genética, ao comércio de órgãos humanos e à possibilidade de planejar a própria morte. Em maio, ele já havia divulgado um manifesto sobre os perigos da inteligência artificial e defendido uma regulamentação internacional para o setor.
Visita a Paris e agenda na França
Leão 14 chegou à Catedral de Notre-Dame depois de saudar pessoas reunidas nas ruas pelo papamóvel. A catedral foi reaberta em 2024, após o incêndio que quase destruiu o edifício em 2019. O papa também conduzirá uma cerimônia de oração no local.
A programação inclui uma visita à sede da Unesco, órgão das Nações Unidas voltado à cultura e à educação, além de um encontro com jovens no estádio nacional da França. No sábado (26), estão previstos uma visita a um centro de acolhimento de migrantes e exilados, uma missa na praça da Concórdia e uma oração no Santuário de Nossa Senhora de Lourdes.
Cerca de 600 mil pessoas se inscreveram para a missa ao ar livre prevista para sábado, perto da avenida Champs-Élysées, em Paris. O bispo francês aposentado Marc Stenger afirmou que a visita provocou uma onda de interesse e que católicos franceses veem a Igreja como uma referência para atravessar um período de incerteza.
Depois de Paris, o papa irá a Lourdes e, na segunda-feira (28), seguirá para Metz, cidade próxima à fronteira com a Alemanha. No local, fará um discurso sobre as raízes da Europa para a paz e a unidade. O presidente francês convidou líderes dos 27 Estados-membros da União Europeia, mas não está definido quantos participarão, porque o evento coincide com a Assembleia Geral da ONU em Nova York.
Encontro com vítimas de abuso
Em Lourdes, Leão 14 deve se reunir no domingo (27) com sete vítimas de abuso cometido por integrantes do clero católico. O encontro foi organizado como um diálogo e deverá incluir pessoas de diferentes regiões da França e com experiências distintas, entre elas vítimas de abuso na idade adulta.
A visita ocorre após um relatório de 2021 que apontou cerca de 330 mil crianças francesas vítimas de abuso por parte do clero católico e de líderes leigos ao longo de sete décadas. O documento afirmou que a Igreja demonstrou indiferença às vítimas. Desde então, bispos franceses introduziram medidas de indenização e proteção, enquanto vítimas continuam cobrando responsabilidade dos dirigentes da Igreja.
Stenger, que liderou a Diocese de Troyes de 1999 a 2020, afirmou que os escândalos feriram profundamente a Igreja e prejudicaram sua credibilidade.
O santuário de Lourdes também está ligado às acusações contra o padre e artista Marko Rupnik, que criou uma série de mosaicos no local. Mais de 20 mulheres o acusaram de abuso sexual. Rupnik não se pronunciou publicamente sobre as acusações e passa por um julgamento canônico no Vaticano. O bispo de Lourdes, Jean-Marc Micas, afirmou em agosto que havia ordenado que os mosaicos fossem cobertos durante a visita do papa.

