O presentismo pode assumir sentidos diferentes. Ele pode significar a leitura do passado a partir das percepções atuais, a perda da história e das tradições, ou ainda uma existência concentrada em um presente contínuo de diversão. Também pode indicar uma vida em transformação permanente, acompanhando as mudanças do mundo. Para José Luiz Quadros de Magalhães, porém, predomina hoje uma forma congelada de presentismo, marcada pelo consumo, pela busca de dinheiro e pela ausência de projetos.
O autor relata ter ouvido, em uma visita de estudantes do ensino médio à PUC Minas, uma conversa sobre quais cursos poderiam garantir acesso a dinheiro e consumo. A situação o levou a refletir sobre a perda gradual de sentido nas escolhas profissionais. Em sua avaliação, o trabalho já não é associado, para uma parcela significativa das pessoas, ao lugar onde se vive, à família, a um ideal ou à realização de valores. A escolha aparece cada vez mais ligada ao ganho financeiro.
República, privilégio e comedimento
A crítica se estende às instituições públicas. Um ministro do Supremo Tribunal Federal, afirma o autor, deveria encontrar realização na defesa da Constituição, da República e da democracia. No entanto, ele observa que alguns integrantes dessas estruturas parecem priorizar luxo, viagens em aviões particulares, favores, recepções e contratos milionários destinados a familiares.
O mesmo raciocínio é aplicado a deputados, senadores e candidatos a esses cargos. Em vez de compreender a representação política como uma oportunidade de defender direitos, parte deles buscaria privilégios, proximidade com o poder econômico e benefícios associados à posição ocupada.
Para o autor, uma República depende de práticas republicanas. Mesmo quando não configuram ilegalidades, determinados comportamentos podem ser incompatíveis com a ética, o respeito e a preservação do Estado de Direito. Ele defende que o exercício de uma função pública não seja usado como caminho para o enriquecimento pessoal e aponta o comedimento — entendido como moderação, prudência, calma, cuidado e responsabilidade — como um desafio contemporâneo.
Na interpretação apoiada em conceitos da psicanálise e em diálogos com Slavoj Zizek e Célio Garcia, o capitalismo teria deslocado o foco do desejo para o gozo e, depois, para uma busca ainda maior por satisfação. O excesso permanente de poder, dinheiro e sucesso eliminaria o tempo e o espaço necessários para desejar.
Sem desejo, sustenta Magalhães, não haveria transformação nem futuros alternativos. O desejo, nesse sentido, seria uma forma de romper com a acomodação produzida pela busca incessante de prazer, influência e riqueza. Voltar a sonhar, imaginar outras possibilidades e desacelerar seriam caminhos para escapar de uma vida reduzida a jantares sofisticados, viagens em jatos particulares, carros de luxo e disputas por poder.
José Luiz Quadros de Magalhães é professor da Faculdade de Direito da UFMG, integra a Diretoria Setorial de Arte e Cultura do APUBHUFMG+ e preside a Comissão Arquidiocesana de Justiça e Paz de Belo Horizonte. O texto expressa a visão do autor.



