A investigação da Polícia Federal sobre os negócios entre o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master calcula um prejuízo aproximado de R$ 17 bilhões em operações realizadas desde 2024. A estimativa aparece em um relatório do Inquérito 5.026, encaminhado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça.
O documento foi assinado em 27 de fevereiro de 2026, em uma representação por medidas cautelares enviada ao STF. A decisão judicial que reproduz informações da apuração é do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), de 28 de novembro de 2025. O conjunto analisado tem mais de 2,5 mil páginas e menciona o BRB mais de 50 vezes.
Fluxo de recursos e créditos questionados
Um dos pontos centrais da apuração é a movimentação de R$ 12,2 bilhões do BRB para o Master nos primeiros meses de 2025. Para os investigadores, o montante ultrapassava o limite de exposição do banco público.
Entre os negócios examinados estão créditos que passaram por uma empresa chamada Tirreno Consultoria Promotoria de Crédito e Participações S.A. Inicialmente negociados entre a Tirreno e o Master, os ativos foram depois revendidos ao BRB sem coobrigação. A Polícia Federal afirma que a companhia havia sido criada recentemente e apresentava sinais de inexistência efetiva. Seu controlador seria um ex-funcionário e parceiro comercial do Master.
De acordo com a investigação, os direitos creditórios seguiram da Tirreno para o Master e, posteriormente, para o BRB. Depois de questionamentos e de uma auditoria do Banco Central, foram trocados por outros ativos cuja avaliação também foi considerada duvidosa.
A origem de parte dos empréstimos consignados comprados pelo BRB também foi colocada em dúvida. Em 5 de março de 2025, o Master comunicou ao Banco Central que os créditos cedidos ao banco público haviam sido originados pela Associação dos Servidores Técnico-Administrativos e Afins do Estado da Bahia (Asteba) e pela Associação dos Servidores da Saúde e Afins da Administração Direta do Estado da Bahia (Asseba).
A decisão judicial registra que os CPFs relacionados aos créditos pertenciam a pessoas de várias regiões do país, e não somente da Bahia. Também não foram encontradas movimentações financeiras das duas associações que correspondessem às cessões feitas para o Master.
Títulos e tentativa de aquisição
A PF também descreve a colocação, pelo Master, de títulos e carteiras de crédito associados a empresas classificadas na investigação como de fachada ou fantasmas. O relatório policial consolidado sobre o balanço indica a emissão de aproximadamente R$ 50 Bilhões em CDBs (Certificados de Depósito Bancário) e CDIs (Certificados de Depósito Interbancário). Desse total, cerca de 12 bilhões poderiam estar sem cobertura, porque os ativos do banco seriam formados majoritariamente por instrumentos de baixa liquidez.
As transações ocorreram ao mesmo tempo em que o BRB tentava comprar o Master. O anúncio foi feito em 28 de março de 2025, mas mensagens encontradas pela PF mostram que Daniel Vorcaro e Paulo Sérgio, servidor do Banco Central, já conversavam sobre a operação em 2 de janeiro.
A proposta estabelecia o pagamento de 75% do patrimônio líquido consolidado do Master. Com base nos números de junho de 2024, a estimativa era de R$ 3,5 bilhões, valor que poderia ser revisto depois da reestruturação da instituição e de eventuais ajustes nas demonstrações financeiras auditadas.
A Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) aprovou o negócio em 19 de agosto de 2025, por 14 votos a 7. A autorização permitia ao BRB comprar 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do Master. Doutora Jane, Eduardo Pedrosa, Hermeto, Iolando, Jaqueline Silva, João Cardoso, Jorge Viana, Martins Machado, Pastor Daniel de Castro, Pepa, Thiago Manzoni e Wellington Luiz votaram a favor. Daniel Donizet e Joaquim Roriz Neto estavam licenciados e não participaram.
O Banco Central rejeitou a aquisição em 3 de setembro de 2025. Conforme a decisão judicial, durante a análise o regulador identificou indícios de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e encaminhou uma representação criminal ao Ministério Público Federal.
Mensagens apreendidas indicam que Vorcaro participava diretamente das tratativas. Em 15 de março de 2025, Paulo Sérgio perguntou sobre a venda de carteiras ao BRB e sobre um possível prêmio de R$ 5 bilhões. Em outro diálogo, Vorcaro questionou se a supervisão da aquisição poderia ser direcionada ao Banco Central em São Paulo, onde um servidor identificado como Ailton poderia atuar. A PF registrou a conversa como indício de possível ingerência no órgão regulador.
O sigilo relacionado à investigação foi quebrado no último dia 10, a pedido do presidente do STF, Edson Fachin.


