Adriana Maluendas, brasileira que sobreviveu aos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York, participará pela primeira vez da leitura dos nomes das vítimas no memorial, em 2026. Vinte e cinco anos depois do ataque, ela afirma que a cerimônia será uma forma de honrar os mortos, prestar solidariedade às famílias e reconhecer a própria sobrevivência.
Na manhã dos atentados, Adriana estava hospedada no sexto andar do Marriott World Trade Center, o hotel situado entre as Torres Gêmeas. Ela tinha 29 anos, havia chegado aos Estados Unidos três dias antes para estudar commodities e pretendia se mudar para Nova York. O hotel foi destruído quando as torres desabaram.
Pouco depois de o primeiro avião atingir a Torre Norte, o prédio chacoalhou. O sistema de alarme orientava os hóspedes a permanecerem nos quartos, mas Adriana pegou uma bolsa com o passaporte e a carteira, levou também o cartão que abria a porta e decidiu descer. No caminho, encontrou uma mulher cadeirante e uma jovem em estado de choque, identificada pelo nome fictício de Audrey.
Ao olhar pela janela panorâmica, viu destroços e partes de corpos no chão. Sem rampa no sexto andar, ela informou que buscaria ajuda e começou a descer com Audrey. Antes de deixar o hotel, as duas avisaram bombeiros e outras pessoas sobre a presença da mulher cadeirante. A informação foi repetida como “Wheelchair lady, sixth floor”.
Na fuga, Adriana caiu na escadaria e bateu a coluna. Ao chegar ao lobby, um elevador explodiu e uma nuvem de fumaça avançou sobre as duas. Do lado de fora, elas viram o segundo avião atingir a outra torre. Quando os prédios começaram a desabar, correram com outras pessoas em direção ao Battery Park. A nuvem de poeira alcançou o grupo, que se jogou no chão. Foi então que Adriana pensou pela primeira vez que morreria.
O reencontro com a mulher cadeirante
Depois do desabamento, Adriana e Audrey caminharam por horas cobertas de cinzas. A família da brasileira não sabia se ela estava viva, e a agência responsável pela reserva chegou a avisar que possivelmente ela não teria sobrevivido. Por volta das 19h, ela chegou a outro hotel, onde uma funcionária reconheceu seu nome e informou que havia pessoas esperando por ela.
No dia seguinte, o vice-cônsul brasileiro Dario Campos a levou ao hospital. Adriana, porém, continuava preocupada com a mulher cadeirante que havia ficado no sexto andar. Ela voltou ao Brasil em 21 de setembro, dez dias depois do atentado, mas não conseguia se sentir segura. Durante quase um ano, dormiu de roupa, sem usar pijama, porque acreditava que precisava estar pronta para correr.
A sobrevivente só descobriu o destino da mulher no nono aniversário do atentado. Ela se chamava Leigh Gilmore. Enquanto Adriana e Audrey desciam, os bombeiros foram informados sobre Leigh e subiram até o sexto andar. A mãe dela havia retornado ao quarto para buscar documentos ou medicamentos, e um funcionário do hotel e os bombeiros conseguiram retirá-la por um elevador de serviço. Mãe e filha foram separadas durante a confusão, mas se reencontraram no dia seguinte.
Leigh tinha esclerose múltipla e morreu quatro anos depois, mas não morreu nos atentados. Para Adriana, saber disso retirou parte da culpa que carregava por tê-la deixado para trás. A história deu origem ao livro Além das Explosões, escrito pela brasileira durante o processo de reconstrução.
Consequências e preparação para a cerimônia
Adriana associa problemas de saúde posteriores à fumaça e à poeira daquele dia. Quatro anos depois, começou a ter asma. Atualmente, convive com doença pulmonar obstrutiva crônica, problemas na coluna e perda óssea na mandíbula. Ela usa bombinhas há 21 anos e afirma que passou quatro anos tomando antidepressivos, além de ter feito terapia.
Os atentados, planejados e executados pela organização terrorista al-Qaeda, deixaram 2.977 mortos e mais de 6 mil feridos. A experiência também modificou a trajetória pessoal de Adriana. Ela afirma que se tornou mais voltada ao trabalho voluntário e hoje participa de três grupos, ajudando outras pessoas quando sua saúde permite.
Durante anos, guardou o cartão que abria a porta do quarto no Marriott World Trade Center. Depois de reencontrar a família de Leigh, doou o objeto ao Museu Memorial do 11 de Setembro. Também entregou o passaporte usado na época, após obter autorização das autoridades brasileiras. O museu preserva os registros da hospedagem, os objetos e o relato de Adriana em português, inglês e espanhol.
Ela já havia visitado o memorial em outras datas, mas nunca no dia 11 e nunca tinha aceitado participar da leitura dos nomes. Em 2026, recebeu o convite três vezes. Na última, respondeu: “Acho que chegou a minha hora”. Cada participante recebe uma lista com cerca de dez a 15 nomes. Adriana pediu para ler os nomes dos quatro brasileiros oficialmente reconhecidos entre as vítimas, mas só saberá quais estarão em sua lista quando chegar ao local.
“Não sei por que sobrevivi”, diz Adriana ao recordar a pergunta que a acompanhou durante anos. Agora, ela afirma conseguir agradecer por estar viva, cuidar da saúde e registrar o que viveu para as próximas gerações. A cerimônia, segundo ela, representará o encerramento de um ciclo e a confirmação de que, apesar dos efeitos físicos e emocionais do atentado, continua reconstruindo a própria vida.


