A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), descreve que o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) tratava diretamente com Kassio Nunes Marques de processos e ações judiciais. As conversas foram reunidas na investigação sobre um suposto esquema de tráfico de influência em tribunais superiores.
O parlamentar foi alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) nesta segunda-feira (14), na terceira fase da operação Transparência. A apuração também alcança a advogada Valéria Rodrigues Linhares, esposa de Cezinha, e Mariângela Fialek, servidora da Câmara conhecida como “Tuca”.
Conversas sobre memoriais e pedidos
Os diálogos analisados pela PF estavam em um celular apreendido na primeira fase da operação, em dezembro de 2025. Eles ocorreram em junho de 2025 e mencionam Nunes Marques, ministro do STF e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Em 12/6, Fialek enviou a Cezinha arquivos relacionados às reclamações Rcl 76831 e 79545, além de pedir notícias sobre o andamento. Na troca de mensagens, o deputado afirmou que sua esposa poderia encontrar a servidora na Câmara para atualizar informações e tratar de outros processos.
As mensagens também indicam que Cezinha pretendia falar por vídeo com Nunes Marques às 16:00. A conversa mencionava a possibilidade de apresentar ao ministro um pedido relacionado a um processo. Para Dino, esse conteúdo indicaria que o deputado não apenas encaminhava documentos, mas se dispunha a fazer uma solicitação direta ao julgador.
O ministro afirmou que a atuação descrita envolveria interesses de pessoas ligadas ao parlamentar por vínculo conjugal e econômico. Ele também avaliou que a referência a uma pessoa com um assunto a ser tratado com Nunes Marques poderia apontar para a intermediação de terceiros, cuja identificação dependeria do acesso aos dispositivos apreendidos.
Funções atribuídas ao grupo
Na descrição apresentada por Dino, Fialek captava e formalizava causas e preparava memoriais. Valéria redigia, revisava e assinava documentos de honorários e de cessão de crédito, além de acompanhar a evolução dos casos. Ao deputado caberia, conforme a decisão, o contato pessoal com ministros de tribunais superiores.
A investigação também identificou conversas com menções a R$ 500 mil, R$ 1 milhão e R$ 2 milhões. Para o ministro, os valores seriam incompatíveis com uma atuação exclusivamente técnica e estariam relacionados ao resultado de julgamentos.
A PF investiga suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Em nota, a corporação afirmou que integrantes do grupo teriam negociado pagamentos condicionados ao resultado de processos judiciais.
Dino e a PF ressaltaram que não há, até o momento, indicação de participação de magistrados de tribunais superiores nos fatos investigados. Valéria é considerada foragida desde agosto, quando tentou embarcar do Aeroporto de Congonhas (SP) para Brasília com R$ 510 mil em espécie na bagagem de mão.
Cezinha é uma liderança da bancada evangélica no Congresso Nacional. O deputado apoiou André Mendonça, Cristiano Zanin e Jorge Messias em processos de indicação ao STF; o último nome foi rejeitado pelo Senado.


