Uma expedição com 16 pesquisadores reuniu possíveis novas espécies de animais e plantas durante 19 dias de trabalho em ecossistemas de altitude na Serra do Aracá, no norte do Amazonas. O grupo também coletou amostras de solo, água, tecidos e parasitas para análises genéticas, ambientais e de saúde.
O acampamento principal foi instalado no topo de um platô situado a 1.260 metros de altitude e a 220 quilômetros de Barcelos (AM). A equipe investigou áreas de floresta nebular, um tipo de mata úmida de altitude envolvida por neblina ou nuvens baixas, além de riachos e formações rochosas do Pantepui, conjunto de montanhas que se estende pelo sul da Venezuela, norte do Brasil e oeste da Guiana.
Dois ambientes de altitude
O acesso à mata nebular exigiu o mapeamento do terreno por drone. As primeiras tentativas de abertura de trilhas foram interrompidas por paredões e áreas acidentadas. A rota definitiva, com quase dois quilômetros, levou a uma região situada a 1.360 metros de altitude.
A escassez de chuvas dificultou a busca por anfíbios e répteis, que dependem da umidade para permanecer ativos. Mesmo assim, a equipe conseguiu realizar coletas mais numerosas na mata nebular do que nas áreas próximas ao acampamento principal.
Em 30 de agosto, parte dos pesquisadores foi de helicóptero para um acampamento secundário, a cerca de 25 quilômetros do campo-base. O local, batizado de Aracazinho, fica em uma montanha de 10 quilômetros quadrados e 850 metros de altitude. Diferentemente do platô principal, apresentava terrenos arenosos, pouca pedra visível e bosques mais secos.
A diferença entre os ambientes também apareceu na fauna. No Aracazinho, os pesquisadores encontraram espécies de altitude, como um anfíbio do gênero Myersiohyla, e pererecas de terras baixas do gênero Osteocephalus. A botânica Vania Nobuko Yoshikawa identificou famílias que não ocorriam no platô, incluindo Apocynaceae, da qual coletou duas espécies inéditas, e Ericaceae.
Coletas e processamento
Os espécimes foram encaminhados a um laboratório montado no acampamento principal. Os animais foram registrados, fotografados ainda vivos e submetidos a análises de temperatura, cromossomos, parasitas, tecidos e material genético. A coloração em vida foi documentada antes da preservação, porque o formol e o etanol alteram as tonalidades originais.
Também foram coletadas 250 amostras de parasitas sanguíneos e entre 80 e 90 amostragens citogenéticas. Amostras de água e solo serão usadas para a extração de DNA ambiental, com o objetivo de mapear vírus, bactérias e amebas. O grupo fez ainda cinco perfurações de solo, entre 50 centímetros e 1 metro de profundidade, para análises de pólen e reconstituição da vegetação dos últimos 30 mil anos.
O inventário registrou nove espécies de lagartos, cinco espécies de cobras e 18 espécies de anfíbios. Entre os lagartos, cinco são provavelmente novas para a ciência, incluindo um possível gênero novo; entre as cobras, uma é inédita; e os anfíbios incluem cerca de dez prováveis novidades.
Foram reunidos cerca de 80 espécimes de pequenos mamíferos, distribuídos em aproximadamente 20 espécies de roedores e marsupiais. A equipe também recolheu cerca de 200 espécimes de aves, representando por volta de 80 espécies, além de evidências indiretas da presença de veados e iraras.
O material botânico incluiu mais de 300 amostras de invertebrados e 400 números de plantas, que deram origem a cerca de 2 mil exsicatas. Na entomologia, foram coletados entre 7 mil e 11 mil espécimes, distribuídos em cerca de 200 a 350 morfoespécies.
Destino do acervo
O material será depositado em instituições públicas para preservação e estudos que continuarão nos próximos anos. A maior parte dos exemplares zoológicos será encaminhada ao Museu de Zoologia da USP. As amostras genéticas e de parasitas serão analisadas no Instituto de Ciências Biomédicas da USP e no Instituto Federal do Amazonas.
Os materiais de fungos e bactérias serão processados na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP em Ribeirão Preto. As plantas passarão pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e serão distribuídas entre o Herbário do IB-USP, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro e o Missouri Botanical Garden. Os solos destinados aos estudos paleopolínicos serão analisados no Instituto de Geociências da USP.
A expedição foi financiada pela FAPESP e contou com o apoio do Exército Brasileiro, responsável pelas operações logísticas e de segurança. Participaram cientistas da USP, do Inpa, do Ifam, da UFSCar, da Universidade de Toulouse, da Universidade Autônoma de Madri, do Jardim Botânico do Missouri e do Museu de História Natural de Oslo.


