A notícia e o que está por trás
Política

Eleições de 2026 terão de decidir como as cidades vão se adaptar ao novo clima

A adaptação climática exige integrar planejamento urbano, financiamento, informação e capacidade institucional às políticas públicas existentes.

Eleições de 2026 terão de decidir como as cidades vão se adaptar ao novo clima

As cidades brasileiras foram planejadas com base em padrões de chuva, temperatura e frequência de eventos extremos observados no passado. Drenagem, vias, equipamentos públicos, edificações e regras de ocupação do solo partiram dessas referências. Com a mudança do clima, porém, elas já não são suficientes para orientar as decisões sobre o futuro.

Os riscos urbanos resultam da combinação entre perigos climáticos, exposição e vulnerabilidade, conforme o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Desigualdades, falta de infraestrutura e formas inadequadas de urbanização ampliam os impactos. Uma chuva intensa, uma onda de calor ou uma inundação atinge territórios com diferentes condições de proteção e resposta.

A questão que se coloca para as eleições de 2026 não é somente como reagir ao próximo evento extremo. É decidir se os governos estarão dispostos a rever o planejamento territorial diante de condições climáticas que já estão mudando.

Adaptação integrada às políticas públicas

A adaptação climática não deve ser tratada como uma política isolada, ao lado de habitação, saneamento, mobilidade ou desenvolvimento urbano. A Lei nº 14.904, de 27 de junho de 2024, estabelece diretrizes para planos de adaptação e determina que a gestão dos riscos climáticos seja incorporada às políticas públicas setoriais e temáticas, além das estratégias de desenvolvimento nos diferentes níveis de governo.

Na prática, a política habitacional precisa considerar se a localização escolhida continuará segura diante de novos cenários. Obras de saneamento devem avaliar os efeitos das mudanças no regime de chuvas sobre sua operação e sobre o território. Redes de mobilidade precisam manter acessos essenciais durante eventos críticos, enquanto o desenvolvimento urbano deve evitar a criação de novas áreas expostas.

Isso desloca o risco de uma responsabilidade exclusiva da Defesa Civil ou do órgão ambiental. A adaptação passa a influenciar as decisões ordinárias do Estado e a forma como as políticas são formuladas, financiadas e avaliadas.

Instituições, dados e decisões

A integração entre políticas depende de mais do que planos e obras. O IPCC aponta a fragmentação institucional, as limitações financeiras, as dificuldades de planejamento integrado e as falhas de monitoramento e avaliação como obstáculos à adaptação urbana. Também considera fundamentais a capacidade de governança, o acesso à ciência, à tecnologia e ao conhecimento local e o aprendizado institucional.

O clima, a ocupação urbana e as respostas do poder público estão em transformação contínua. Por isso, adaptar exige acompanhar mudanças, verificar os resultados das intervenções e corrigir os caminhos quando necessário. A capacidade institucional deve ser entendida como parte da infraestrutura climática.

Um mapa de risco, por si só, não reduz a vulnerabilidade. O conhecimento precisa orientar o Plano Diretor, o orçamento, a localização de obras e os critérios de investimento. O mesmo vale para sensores, sistemas de monitoramento, geotecnologias, indicadores territoriais, modelagens e sistemas de informação: esses recursos só produzem capacidade adaptativa quando seus dados são convertidos em decisões, com equipes técnicas, financiamento, coordenação institucional e participação social.

O território como elo entre setores

Habitação, saneamento, mobilidade, meio ambiente, saúde, infraestrutura e redução de riscos incidem sobre o mesmo território, mas nem sempre são planejados de forma conjunta. A adaptação pode ajudar a enfrentar essa fragmentação ao mostrar como decisões de um setor interferem nos demais.

Uma intervenção de drenagem não deve ser avaliada apenas pela rapidez com que retira água de um ponto se, ao mesmo tempo, transfere o problema para áreas a jusante. Da mesma forma, remover famílias de uma área perigosa não representa adaptação se o reassentamento criar novas vulnerabilidades sociais e territoriais.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas alerta que certas ações urbanas podem transferir riscos entre lugares, grupos sociais ou setores. O Ministério das Cidades tem orientado estados e municípios a incorporar a dimensão climática às políticas urbanas e a priorizar territórios e populações mais vulnerabilizados. A adaptação, nesse sentido, também envolve justiça territorial: reduzir perdas médias não é suficiente se a proteção continuar concentrada onde já existe maior capacidade de investimento.

O que estará em disputa em 2026

O Plano Nacional sobre Mudança do Clima, denominado Plano Clima 2024–2035, estabelece a adaptação como um de seus eixos. A meta é que, até 2035, todos os estados e pelo menos 35% dos municípios brasileiros disponham de planos de adaptação.

A produção desses planos, contudo, não basta. Municípios com estruturas técnicas reduzidas precisam de financiamento, formação especializada, dados e apoio continuado para assumir novas responsabilidades. Os estados têm papel de coordenação regional e metropolitana quando os riscos ultrapassam os limites municipais. A União pode induzir mudanças por meio do financiamento, da produção de informações, dos critérios para investimentos públicos e da articulação entre políticas nacionais.

Os programas de governo deverão explicar como pretendem transformar conhecimento climático em planejamento. Isso inclui atualizar diagnósticos e cenários, rever investimentos diante de novas evidências, monitorar os resultados das políticas e modificar estratégias quando as respostas forem insuficientes. A adaptação não termina com a inauguração de uma obra ou a publicação de um plano.

Durante muito tempo, os desastres foram tratados como acontecimentos excepcionais na política urbana brasileira. A mudança do clima torna essa lógica menos sustentável. O desafio é preparar cidades capazes de continuar funcionando, proteger pessoas e garantir direitos quando as condições já não correspondem às referências históricas usadas em seu planejamento.

A escolha das eleições de 2026 não será apenas entre projetos de governo. Também envolverá decidir entre administrar as consequências de um clima transformado ou construir capacidade pública para antecipá-las. Se desenvolvimento urbano, habitação, saneamento e mobilidade moldam diariamente as condições de exposição e proteção da população, adaptar as cidades significa planejar essas políticas de forma conjunta e manter instituições capazes de aprender continuamente.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Assine nossa newsletterAs principais notícias do dia no seu e-mail.