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Política

Saneamento no Rio Grande do Sul exige planejamento por bacias e controle social

A universalização dos serviços depende de planejamento territorial, resposta a eventos extremos e participação da população na gestão pública.

Saneamento no Rio Grande do Sul exige planejamento por bacias e controle social

A política de saneamento do Rio Grande do Sul enfrenta desafios que combinam expansão desigual das cidades, crise climática, privatização de serviços e ausência de mecanismos completos de planejamento e controle social. A avaliação é de Heleniza Ávila Campos e Darci Barnech Campani, docentes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em análise sobre os caminhos para a universalização do acesso à água e ao esgotamento sanitário.

O saneamento básico reúne abastecimento de água, esgotamento sanitário, gestão de resíduos sólidos e drenagem urbana. Esses serviços estão ligados à saúde pública, à preservação ambiental e à qualidade de vida. Para os autores, a definição de prioridades no orçamento estadual precisa ser acompanhada da qualificação do corpo técnico e de um planejamento territorial capaz de considerar as diferenças entre as regiões do estado.

Metas e desigualdade territorial

O Marco Legal do Saneamento, estabelecido pela Lei nº 14.026/20, determina que os estados atendam, até 2033, 99% da população com água tratada e 90% com coleta e tratamento de esgoto. No Rio Grande do Sul, o cumprimento dessas metas depende da compreensão sobre a expansão desigual das cidades e da rede urbana, especialmente na Região Hidrográfica do Guaíba, onde estão as áreas mais adensadas do estado.

A concentração urbana e a periferização podem ampliar situações de insegurança hídrica. Por isso, a política precisa articular municípios e diferentes setores da administração pública, com soluções integradas e regionalizadas. Na avaliação dos docentes, a gestão por bacias hidrográficas oferece uma referência para organizar essa cooperação e enfrentar as diferenças de infraestrutura entre os territórios.

O marco legal também ampliou a participação da iniciativa privada na prestação dos serviços, por meio de concessões e parcerias público-privadas. Em 2023, o Rio Grande do Sul assinou o contrato de venda e transferência da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) para o grupo Aegea, com participação das gestoras de investimentos Kinea e Perfin. A mudança exige avaliar seus efeitos sobre a qualidade dos serviços e sobre a capacidade de alcançar a universalização.

Entre os problemas associados a privatizações anteriores, os autores mencionam falhas regulatórias, distribuição desigual da infraestrutura, atrasos em investimentos, aumento de tarifas, falta de transparência e racionamento de água. Itu e Tocantins são citados como casos de reestatização ou remunicipalização.

Regionalização e impactos das enchentes

Na discussão sobre a regionalização prevista pela Lei 14.026/20, a área técnica estadual defendia a divisão pelas regiões hidrográficas previstas na Lei Estadual de Recursos Hídricos, a Lei nº 10.350/1994. O governo estadual, porém, separou os municípios atendidos pela Corsan daqueles com serviços municipais. Na avaliação apresentada, essa configuração facilitou a privatização ao delimitar os grupos de municípios que integrariam a primeira etapa de transferência ao setor privado.

Outro desafio é a relação entre eventos hidrológicos extremos e a infraestrutura de saneamento. A inundação de maio de 2024 afetou os quatro eixos do serviço. No abastecimento de água, houve danos às redes, aumento dos custos de operação, contaminação de mananciais e interrupções no fornecimento. Mais de 2 milhões de pessoas ficaram sem água potável distribuída regularmente durante a enchente no estado.

No esgotamento sanitário, as cheias provocaram extravasamento de esgoto para residências e corpos d’água, além da entrada de águas pluviais na rede sanitária, reduzindo a capacidade de tratamento das estações. Na drenagem urbana, o excesso de água gerou alagamentos, enxurradas, erosão e deslizamentos em áreas vulneráveis.

A inundação também deslocou e produziu grande quantidade de entulho. A estimativa para o Rio Grande do Sul em 2024 é de 46,7 milhões de toneladas, volume superior ao dobro dos resíduos processados no estado entre 2018 e 2022. Esse material obstruiu canais de drenagem, agravou alagamentos e ampliou a dispersão de contaminantes.

Plano estadual e participação social

Diante da exposição a eventos extremos, a resposta não deve se limitar ao atendimento emergencial. Os autores defendem uma estratégia de adaptação regionalizada, organizada por bacias hidrográficas, que inclua a continuidade e a recuperação dos serviços de saneamento. Para isso, seria necessário revisar estruturas legais, institucionais e operacionais e retomar o planejamento de médio e longo prazo.

Uma das medidas apontadas é recuperar o Plano Estadual de Saneamento Ambiental, que deveria orientar a política no estado. A revisão periódica do documento está atrasada. A legislação prevê mecanismos de controle social, mas, embora o Rio Grande do Sul tenha realizado a Conferência Estadual das Cidades em 2025 e eleito o Conselho Estadual das Cidades, as representações ainda não haviam sido nomeadas até a data considerada pelos autores.

A ausência dessas nomeações, segundo a análise, limita a participação da população na formulação das políticas públicas e contraria os princípios da Política Nacional de Saneamento, instituída pela Lei 11.445/2007. A norma prevê gestão integrada por meio de planos municipais e estaduais, com mecanismos de controle social.

A professora Lorena Costa resume o desafio ao afirmar que a “expansão e manutenção da rede de esgoto e abastecimento de água é um investimento de alto nível, com longo prazo de maturação”. Para os autores, uma política estratégica de saneamento precisa começar no presente para produzir resultados no futuro.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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