A escolha de governantes que negam as mudanças climáticas pode dificultar a redução dos riscos e ampliar a ocorrência de desastres nas cidades, segundo Rogério Palhares Z. de Araújo, professor do Departamento de Urbanismo da Escola de Arquitetura da UFMG e pesquisador do núcleo RMBH do Observatório das Metrópoles. Em artigo de opinião, ele afirma que os eventos climáticos atuais são mais graves e frequentes do que aqueles associados aos ciclos naturais anteriormente observados.
Mitigação e planejamento
Entre os efeitos já presentes estão a elevação do nível do mar, as ressacas, as ondas de calor, as estiagens prolongadas, as tempestades, as inundações, a disseminação de doenças contagiosas e a redução da disponibilidade de água e alimentos. As cidades concentram pessoas, infraestruturas e atividades econômicas e, por isso, são apresentadas pelo autor como espaços centrais para estratégias de redução das causas e dos impactos dessas alterações.
Araújo relaciona as emissões de gases às indústrias, aos veículos movidos a gasolina e diesel, ao agronegócio, à mineração e ao desmatamento. A mitigação, segundo ele, envolve substituir combustíveis fósseis por energias limpas e reduzir a poluição industrial, a degradação ambiental, os desmatamentos e as queimadas ligadas à pecuária e à agricultura em larga escala.
Os compromissos assumidos pelo Brasil em acordos internacionais, escreve o autor, precisam ser compartilhados por estados e municípios, além de envolver empresas e cidadãos. Para isso, ele cita Planos de Ação Climática, Planos de Redução e Gestão de Riscos e Planos de Contingência como instrumentos que deveriam fazer parte do planejamento dos entes federativos.
Adaptação das cidades
A adaptação também é necessária diante dos desastres que já ocorrem, com atenção especial às populações vulneráveis que vivem em encostas sujeitas a deslizamentos, várzeas e mangues sujeitos a inundações. As medidas devem considerar cada risco climático e a capacidade técnica e institucional disponível.
Entre as soluções mencionadas estão obras de drenagem, saneamento e contenção, arborização urbana, ampliação de áreas verdes, melhoria das calçadas e implantação de ciclovias. O autor também defende telhados verdes, jardins de chuva e pavimentos drenantes, medidas que podem aumentar a infiltração da água da chuva e reduzir enxurradas que chegam aos córregos.
A aproximação do El Niño, afirma Araújo, exige providências diante da possibilidade de tempestades, vendavais e secas no continente. Ele cita abrigos e planos de contingência como respostas emergenciais e propõe integrar saneamento, habitação, mobilidade e meio ambiente, tendo o ciclo hidrológico como referência para planos, projetos e obras.
Crítica às escolhas políticas
O artigo questiona governantes que negam a existência das mudanças climáticas e incentivam mineração, agropecuária predatória e desmatamento em mananciais, serras, áreas protegidas e reservas indígenas. Também critica políticas que priorizam a privatização da água, das riquezas minerais e da energia sem compromisso com quem não tem acesso a serviços básicos.
Araújo ainda contesta o aumento da densidade e da altura de edifícios de luxo e a impermeabilização do solo em áreas já saturadas, quando essas decisões ocorrem em detrimento da produção de moradias e da regularização fundiária em bairros populares, ocupações e favelas. Para ele, a demolição de ciclovias e a construção de viadutos e trincheiras podem estimular o uso de automóveis e agravar problemas de circulação.
O autor conclui que, enquanto houver democracia, o voto é o principal instrumento de escolha. Na avaliação apresentada no artigo, eleger ou reeleger políticos negacionistas, sem visão de futuro e responsabilidade social, tende a retardar medidas de prevenção e a atingir de forma mais dramática as populações pobres.


