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Política

Washington e o limite voluntário do poder presidencial

Biografia de H.W. Brands revisita a trajetória do primeiro presidente americano, incluindo seu legado institucional e suas contradições.

Washington e o limite voluntário do poder presidencial

A decisão de George Washington de não disputar um terceiro mandato presidencial, anunciada em 17 de setembro de 1796, estabeleceu um precedente central para a política dos Estados Unidos. Aos 64 anos, ele recusou uma reeleição que provavelmente venceria e associou sua saída do cargo à preservação da alternância de poder.

A regra constitucional que limita o presidente americano a dois mandatos só seria incorporada em 1951. Antes disso, a atitude de Washington já havia criado um modelo para seus sucessores e se tornado, para muitos analistas, seu principal legado político. A comparação com Donald Trump aparece justamente na distância entre os princípios atribuídos ao primeiro presidente e a atuação do atual ocupante do cargo.

Autoridade com limites

A trajetória de Washington é reconstituída pelo historiador H.W. Brands em American Patriarch: The Life of George Washington, livro ainda inédito no Brasil. Professor da Universidade do Texas, Brands examina a vida pública e privada do personagem para mostrar como suas experiências influenciaram suas decisões políticas.

Washington saiu da elite agrária da Virgínia, atuou como agrimensor e participou, ainda jovem, da Guerra Franco-Indígena. Em 1754, aos 22 anos, foi enviado pela Virgínia para conter o avanço francês sobre o Vale do Ohio. Depois de ordenar um ataque no qual morreu um oficial que, segundo a França, estava em missão diplomática, Washington sustentou que sua tropa havia sido atacada. A controvérsia ampliou um conflito territorial e contribuiu para a crise internacional que levou à guerra encerrada em 1763.

Meses depois, derrotado em Fort Necessity, ele se rendeu. Para Brands, episódios como esse ajudaram a formar o senso de disciplina, dever e perseverança de Washington. Sua importância histórica, porém, não estaria em um carisma extraordinário, mas na capacidade de exercer autoridade com moderação.

Ao deixar o comando do Exército Continental, em 1783, e depois abandonar a disputa presidencial, Washington colocou a estabilidade das instituições acima da ambição pessoal. O desapego ao poder, nessa leitura, tornou-se uma virtude republicana essencial. A moderação não significava ausência de firmeza: em 1794, durante a Revolta do Whiskey, ele formou e liderou uma tropa para sufocar o protesto violento contra o aumento dos impostos sobre o destilado.

Washington também defendia a observância da Constituição, a tolerância e a convivência pacífica. Em sua mensagem de despedida, afirmou a necessidade de “boa-fé e a justiça nas relações com todas as nações” e declarou que o governo não respaldaria o “fanatismo nem oferecia auxílio à perseguição”. Suas decisões eram orientadas pela percepção de que poderiam estabelecer modelos para os presidentes seguintes.

O patriarca e suas contradições

O título da biografia expressa a interpretação de Brands: Washington teria exercido uma autoridade semelhante à de um patriarca da nova república, alguém que orientava, estabelecia limites e oferecia proteção. Sua experiência e seu julgamento ajudaram a conferir legitimidade e estabilidade a instituições ainda frágeis.

O livro, contudo, não apresenta uma imagem sem conflitos. A reputação de integridade pública convive com a tensão entre declarações privadas favoráveis à abolição gradual e suas ações em relação às pessoas escravizadas sob seu controle.

Em 1796, enquanto os Washington estavam na Filadélfia, Oney, mulher escravizada que trabalhava para Martha Washington, fugiu para New Hampshire. George Washington contratou capangas para localizá-la e tentou recuperá-la. A fuga ocorreu durante manobras destinadas a impedir que os escravizados conquistassem a liberdade segundo a legislação da Pensilvânia, que previa a emancipação após determinado período de residência. Para evitar o cumprimento desse prazo, Washington os enviava temporariamente para fora do estado.

A biografia se apoia em cartas, diários, discursos e outros documentos da época para reexaminar a atuação de Washington na vida pública e privada. O resultado é um retrato que combina a criação de instituições, o controle voluntário do poder e as contradições de sua conduta.

Washington morreu aos 67 anos, em 1799, na propriedade Mount Vernon, na Virgínia. Considerava o local seu verdadeiro lar e afirmou: “Prefiro ficar em minha fazenda do que ser o imperador do mundo”.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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