O primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 alterou o equilíbrio político na região Norte. Flávio Bolsonaro venceu em quatro dos sete estados, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva ficou à frente em três. Mais do que a divisão entre os estados, o resultado revela um movimento mais amplo: Lula venceu onde suas margens diminuíram, o bolsonarismo ampliou vantagens onde já era forte e o Tocantins mudou de lado em relação a 2022.
O Norte, porém, não se transformou em um bloco uniforme de direita. Pará, Amazonas e Amapá continuaram dando maioria a Lula. Acre, Rondônia e Roraima mantiveram uma tendência bolsonarista já observada em eleições anteriores. O dado mais relevante é que a direita avançou em praticamente toda a Amazônia Legal, inclusive nos estados em que Lula permaneceu à frente.
No Amapá, a disputa terminou praticamente empatada. No Amazonas, Lula venceu por uma margem relativamente pequena. No Pará, maior colégio eleitoral da região, ele continuou liderando, mas com vantagem menor. Já no Tocantins, onde havia derrotado Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022, perdeu agora para Flávio. Em Rondônia, Roraima e Acre, as diferenças favoráveis à candidatura bolsonarista chegaram a dezenas de pontos percentuais.
A distância entre política pública e identificação
O resultado não pode ser explicado por um único fator. Agronegócio, conservadorismo religioso, desinformação, expansão das igrejas evangélicas, garimpo e conflitos ambientais fazem parte do cenário, mas não dão conta, isoladamente, da mudança observada nas urnas.
A Amazônia ganhou centralidade na agenda pública brasileira por razões ambientais e internacionais. Combate ao desmatamento, proteção da floresta, transição climática, demarcação de terras indígenas, bioeconomia e realização da COP30 passaram a ocupar espaço importante no debate nacional. Nesse campo, há diferença entre Lula e o bolsonarismo: a política ambiental do governo federal reduziu o desmatamento desde 2023, enquanto Flávio Bolsonaro chegou à eleição defendendo flexibilizações e outra concepção para a exploração dos recursos amazônicos.
Isso não significa que o governo Lula tenha ignorado a região ou deixado de realizar investimentos. Em 2025, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes informou ter destinado R$ 3,3 bilhões a obras nos sete estados nortistas, incluindo rodovias, pontes e corredores logísticos. Em maio deste ano, Lula esteve no Amazonas para acompanhar obras e anunciar novos investimentos na BR-319, uma via de forte significado político na região.
A questão, portanto, está na diferença entre presença administrativa e presença política. Uma obra, um programa social ou uma redução do desmatamento não produzem, por si só, identificação com um projeto político. Entre a ação do Estado e a percepção de que ela representa os interesses da população há uma rede de lideranças locais, partidos, igrejas, associações, sindicatos, redes sociais, meios de comunicação e organizações comunitárias.
É nessa cadeia que o bolsonarismo parece ter construído uma vantagem. A direita organizou conflitos complexos em uma narrativa simples: haveria gente de fora tentando impedir que a população trabalhe, produza e desenvolva a própria região. Brasília, organizações ambientalistas, ONGs, universidades, organismos internacionais e movimentos sociais podem ser apresentados como partes de um mesmo campo adversário.
As várias experiências do Norte
Essa narrativa reúne situações de origens distintas. Uma multa ambiental, uma estrada precária, a demora na regularização de uma propriedade, o preço de uma passagem aérea, as dificuldades para transportar uma produção, o isolamento em relação ao restante do país e o custo dos alimentos podem ser incorporados à mesma percepção de abandono ou impedimento. A disputa por políticas públicas passa, assim, a ser também uma disputa por pertencimento.
O campo progressista costuma falar da Amazônia por categorias importantes para o debate nacional e internacional, mas insuficientes para representar toda a experiência social da região. A floresta, os povos indígenas, o garimpo ilegal, o desmatamento e a violência fundiária são questões incontornáveis. Ao mesmo tempo, a Amazônia também é formada por Manaus, Belém, Macapá, Porto Velho, Rio Branco, Boa Vista e Palmas; por periferias urbanas, trabalhadores do comércio, motoristas de aplicativo, empregadas domésticas, pequenos empreendedores, agricultores, servidores públicos, jovens que tentam entrar na universidade e famílias que pagam tarifas aéreas elevadas para visitar parentes em outras regiões.
Preservar a floresta e desejar desenvolvimento não são necessariamente posições incompatíveis para quem vive na região. O problema político surge quando apenas um lado consegue oferecer uma linguagem que una essas duas demandas. O bolsonarismo tenta ocupar esse espaço com uma ideia de desenvolvimento baseada em menos regulamentação ambiental, expansão de atividades extrativas, infraestrutura e exploração econômica da floresta. Em 2026, esse discurso apareceu novamente em candidaturas da região e encontrou ressonância em áreas ligadas ao agronegócio e aos corredores econômicos da Amazônia Legal. No eixo da BR-163, Flávio Bolsonaro ampliou o desempenho obtido pelo pai quatro anos antes em diversos municípios.
A resposta progressista não pode partir da premissa de que essas populações foram simplesmente manipuladas. Quando uma narrativa produz adesão, a questão política é identificar o que ela conseguiu nomear e que outros grupos não conseguiram. Não basta afirmar que a floresta em pé vale mais. É necessário explicar quem recebe esse valor, onde ele circula e como chega às comunidades próximas da floresta. A bioeconomia precisa ser relacionada a trabalho, renda e infraestrutura. A transição energética precisa considerar a conta de luz. A soberania sobre a Amazônia também exige discutir por que moradores da região sentem que decisões sobre seu território continuam sendo tomadas longe deles.
Uma disputa que continua no segundo turno
O campo progressista ainda possui organizações indígenas, quilombolas, sindicais, feministas, ambientais, culturais e populares com décadas de atuação na região, além de governos locais e quadros políticos. Lula venceu nos dois maiores eleitorados nortistas, Pará e Amazonas. O Norte não é um território perdido.
Mas o avanço da direita, inclusive em áreas onde Lula venceu, indica uma disputa pela imaginação de futuro. Quando uma candidatura consolida percentuais superiores a 60% e 70% em outros estados da região, o fenômeno ultrapassa um simples rearranjo eleitoral.
O segundo turno ocorrerá em um país dividido, com Flávio Bolsonaro e Lula separados por poucos pontos percentuais no primeiro turno. Nenhum dos dois alcançou maioria absoluta, e a decisão foi transferida para 25 de outubro. A partir de agora, viagens, anúncios, apoios e promessas colocarão o Norte novamente no centro dos cálculos eleitorais.
A lição da região, porém, é que o diálogo não pode começar apenas entre um turno e outro. Ele precisa envolver moradores de bairros periféricos de Manaus e Belém, cidades cortadas por rodovias federais, comunidades ribeirinhas, trabalhadores urbanos, povos indígenas, pequenos agricultores, professores, comerciantes e jovens. A Amazônia já está no centro do discurso sobre o Brasil. O resultado de 2026 mostra que o Norte precisa estar também no centro da política.


