A cúpula anual dos Brics em Nova Delhi reuniu quase todos os líderes dos 10 países do grupo e produziu uma declaração conjunta com 140 parágrafos. Para Paulo Nogueira Batista Jr., os resultados mais relevantes foram a presença dos principais dirigentes, a capacidade de aprovar um texto comum e os sinais de aproximação entre China e Índia.
Vladimir Putin e Xi Jinping participaram do encontro. As exceções foram os líderes do Brasil e dos Emirados Árabes Unidos. Lula não fez a viagem porque estava em campanha pela reeleição. A ausência foi considerada compreensível pelos demais integrantes, diante da situação apresentada no artigo.
A declaração abordou temas como a guerra contra o Irã e a situação humanitária na Palestina. O consenso teve peso político porque o grupo reúne países com posições distintas, entre eles Irã e Emirados Árabes Unidos.
China e Índia
O encontro bilateral entre Narendra Modi e Xi Jinping deu continuidade a movimentos de pacificação iniciados ao longo de 2026. As tensões entre os dois países, relacionadas principalmente a disputas territoriais nos Himalaias, vinham dificultando a atuação dos Brics. As divergências chegaram a uma guerra em 1962, vencida pela China.
A aproximação ainda é descrita como um processo complexo, mas o início desse movimento foi considerado relevante para os dois países, para os Brics e para o Sul Global. Uma das explicações apontadas é a mudança na percepção indiana sobre sua relação com os Estados Unidos. Até 2025, a Índia esperava contar com apoio estado-unidense como contraponto à China. Os ataques ou ameaças de ataques tarifários do governo Trump teriam mostrado, porém, que essa relação especial era apenas parcial e que manter distância da China não garantiria ganhos para os indianos.
As iniciativas financeiras
Na área econômica, o Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como Banco dos Brics, é apresentado como a principal realização prática do grupo. Com sede em Xangai, a instituição tem 11 anos de existência, mais de 300 funcionários e centros regionais no Brasil, na Rússia, na Índia e na África do Sul. O banco aprovou mais de US$ 40 bilhões em projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável.
O número de países membros passou de cinco, os fundadores, para 10. Outros países foram aprovados pelo Conselho de Governadores, mas ainda precisam concluir procedimentos nacionais para ingressar plenamente. Apesar do crescimento, o banco ainda não alcançou uma atuação financeira global. O número de membros chegou a 11 e pode alcançar 14 ou 15 no curto prazo, mas a instituição continua com presença limitada em regiões do Sul Global.
Outra pendência é a dependência do dólar. Embora tenham avançado as emissões de bônus e os empréstimos em renminbi, a moeda norte-americana ainda responde por cerca de 60% das operações ativas e passivas do banco. A declaração pediu mais financiamento em moedas locais e análise acelerada dos pedidos de adesão, no parágrafo 115.
O Arranjo Contingente de Reservas, criado em 2014 junto com o banco, deveria funcionar como um fundo monetário dos Brics e fazer contraponto ao FMI. Sua estrutura operacional foi concluída e passou por testes, mas a unidade de monitoramento macroeconômico prevista no tratado ainda não foi criada. Também falta definir a entrada dos novos integrantes interessados.
Egito e Etiópia são citados como países que poderiam se beneficiar do arranjo, pois mantêm acordos de alta condicionalidade com o FMI. A declaração não tratou da unidade de monitoramento nem da desdolarização do mecanismo, que atualmente permite apenas swaps com dólares dos EUA. Sobre a entrada dos cinco novos membros, limitou-se a mencionar a continuidade das discussões em base voluntária e conforme as circunstâncias de cada país, no parágrafo 97.
O Brics Pay começou a ser discutido em 2024, durante a presidência russa do grupo. A proposta é integrar sistemas nacionais de pagamentos para permitir operações internacionais mais rápidas, baratas e seguras. Brasil, China, Rússia, Irã e Índia já possuem estruturas nacionais semelhantes, mas ainda seria necessário estabelecer a interoperabilidade entre elas.
A declaração mencionou estudos sobre a integração dos canais nacionais de pagamentos e mensagens e defendeu o uso das moedas dos países do grupo no comércio e nos investimentos. O objetivo descrito no parágrafo 90 é buscar soluções rápidas, de baixo custo, acessíveis, eficientes, transparentes e seguras.
Obstáculos e próximos passos
O artigo aponta dois obstáculos internos. O primeiro seria a resistência de bancos centrais a iniciativas que escapem dos padrões definidos pelos Estados Unidos e pela Europa. Como o Arranjo Contingente de Reservas e o Brics Pay dependem dessas instituições, elas podem retardar medidas mesmo quando houver orientação dos líderes e dos ministros de Estado.
O segundo obstáculo é político e está relacionado à influência, dentro dos países dos Brics, de forças alinhadas aos interesses financeiros e geopolíticos dos Estados Unidos e da Europa. Essa influência alcançaria diferentes áreas das sociedades e economias do grupo.
Uma alternativa mencionada é abandonar a exigência de consenso ou unanimidade, que dá poder de veto a cada integrante. A declaração dos líderes em Kazan, em 2024, já havia indicado a possibilidade de iniciativas em base voluntária e não vinculante, permitindo que um subgrupo avance sem a adesão imediata de todos.
A China assumirá a presidência dos Brics em 2027. Um dos desafios será decidir se dará prioridade às iniciativas do grupo ou à própria arquitetura financeira internacional, centrada no renminbi e construída para reduzir a exposição às sanções ocidentais. Para os demais países, a opção considerada preferível é uma estrutura transnacional negociada dentro dos Brics.
A eleição brasileira de outubro também é apresentada como decisiva para o grupo. Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro sobre Lula poderia levar o Brasil a deixar os Brics. Mesmo permanecendo, o país poderia reduzir sua participação, como ocorreu durante a presidência de Jair Bolsonaro. Nesse cenário, o grupo perderia a atuação de um de seus fundadores, enquanto o Brasil se afastaria, total ou parcialmente, de sua principal plataforma de cooperação internacional.


