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Estudo questiona segurança do Provão Paulista e vínculo com bônus na rede estadual

Pesquisa aponta resultados atípicos entre estudantes e critica a aplicação do exame nas próprias escolas, enquanto a Seduc-SP contesta a conclusão de fraude.

Estudo questiona segurança do Provão Paulista e vínculo com bônus na rede estadual

Uma nota técnica da Rede Escola Pública e Universidade (Repu) identificou 4.305 estudantes do 3º ano do ensino médio com saltos de desempenho considerados estatisticamente atípicos no Provão Paulista de 2025. O número é 12,7 vezes maior do que a expectativa matemática calculada pelos pesquisadores.

Fernando Cássio, professor da Faculdade de Educação da USP e um dos autores do estudo, afirma que os dados indicam fraude. A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP), porém, rejeita essa interpretação e sustenta que resultados atípicos, isoladamente, não comprovam irregularidades nem permitem separar evolução da aprendizagem de eventual manipulação.

A controvérsia envolve o desenho do exame e sua relação com as políticas de metas e bonificações da rede estadual. Cássio afirma que a vinculação entre avaliações padronizadas, metas financeiras e punições cria incentivos para a manipulação de indicadores. Ele relaciona esse mecanismo à chamada Lei de Campbell, segundo a qual um indicador usado para decisões de alto impacto tende a ser manipulado e a perder a capacidade de representar o processo que deveria medir.

Metas, bonificações e fiscalização

O pesquisador também critica o fato de o Provão Paulista ser aplicado nas próprias escolas dos estudantes, sob supervisão de professores da rede. Em exames nacionais como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), os alunos fazem as provas em escolas que não são suas e são acompanhados por aplicadores neutros. Para a Repu, o modelo paulista cria conflito de interesses porque o desempenho das unidades está relacionado à remuneração e à permanência de gestores e profissionais.

A Resolução Seduc número 12/2025 prevê que diretores de escolas que não alcançam a “Meta Ouro” podem ser afastados por desempenho insatisfatório. A medida já atingiu ao menos 225 diretores escolares no estado. Cássio defende que a fiscalização não seja feita por profissionais cujo destino profissional e remuneratório dependa do resultado da prova.

A política de bonificações também é apontada como fator de pressão. Em 2025, o estado pagou R$ 544 milhões em bônus a servidores públicos. Em 2026, o valor relacionado ao desempenho no Saresp/Provão Paulista chegou a quase R$ 1 bilhão.

A presidenta licenciada da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) e deputada estadual, Professora Bebel (PT), afirmou que levará as denúncias aos órgãos de fiscalização. Para ela, o exame pode estar sendo usado para apresentar uma imagem positiva da rede, enquanto avaliações aplicadas aos profissionais servem de base para punições.

Distribuição das vagas

Criado pelo governo estadual em 2023, o Provão Paulista foi apresentado como uma alternativa para ampliar o acesso de estudantes da rede pública às universidades paulistas. Dados da Associação dos Docentes da USP (Adusp), no entanto, mostram que, das 13 mil vagas anunciadas, 21,8% — 2.830 vagas — estão nas três principais universidades públicas do estado: 1.500 na USP, 980 na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e 350 na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

As demais 78,2% das vagas estão concentradas na Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp) e nas Faculdades de Tecnologia (Fatecs). A análise de microdados obtidos pela Lei de Acesso à Informação (LAI) apontou ainda que metade das anomalias da rede estava concentrada em 50 das 3.594 escolas estaduais analisadas.

No primeiro semestre de 2026, 14.271 estudantes da rede estadual foram selecionados. Desse total, 11,3% vieram de 128 escolas que registraram mais de 20% de resultados atípicos. Em nove unidades consideradas extremas, 85% dos alunos analisados apareceram nas listas de aprovados para o ensino superior.

Cássio afirma que não é possível concluir que todos esses estudantes fraudaram o exame, mas sustenta que as anomalias podem ter afetado a distribuição de vagas em instituições como USP, Unesp, Unicamp e Fatecs.

Resposta da Secretaria da Educação

A Seduc-SP afirma que associar resultados atípicos à fraude, sem evidências individualizadas, extrapola o que os dados permitem concluir. A secretaria também rejeita a associação entre os 4.305 resultados apontados pela Repu e 27,4% das vagas do Provão Paulista, argumentando que os dois números correspondem a universos distintos.

Como contraponto à hipótese de manipulação, a pasta informou ter analisado o desempenho de escolas citadas no estudo. Em 34 delas, segundo a secretaria, foram identificados resultados elevados ou evolução expressiva em Matemática no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), exame administrado pelo governo federal.

Sobre a segurança da aplicação, a Seduc-SP informou que houve seis casos pontuais de estudantes que entraram com celulares e fotografaram provas em 2025. De acordo com a secretaria, não houve vazamento prévio dos cadernos de questões, os exames dos envolvidos foram anulados e as equipes escolares receberam orientações para reforçar a fiscalização.

A Repu defende que o Provão Paulista deixe de ser usado simultaneamente como instrumento de avaliação da rede e como base para punições ou bonificações. O grupo também propõe a aplicação em locais neutros, a proibição de que docentes fiscalizem suas próprias turmas, protocolos contra celulares, auditorias independentes e participação das comissões de vestibular da USP, Unicamp e Unesp no planejamento e acompanhamento do exame.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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