ESTEIO — A participação de comunidades quilombolas, povos indígenas e assentados da reforma agrária na Expointer combina venda de produtos, geração de renda e reivindicações por território, reconhecimento e respeito. O espaço também é usado para contestar preconceitos e apresentar formas de produção associadas à preservação ambiental.
Produção e presença quilombola
Berenice Gomes de Deus, do Quilombo da Anastácia, em Viamão, levou para a feira artigos elaborados por diferentes comunidades quilombolas. A variedade inclui bolsas, peças de crochê e tricô, pinturas e sabão produzido com óleo de cozinha reaproveitado.
Para ela, a participação permite mostrar o trabalho desenvolvido nos quilombos e ampliar o contato com o público. “Para nós, estar nesse espaço foi uma honra. É maravilhoso porque aqui podemos expor o trabalho feito nas nossas comunidades”, afirma.
Gomes de Deus também associa a comercialização à afirmação da existência quilombola e ao enfrentamento do racismo. Ela menciona a desconfiança ainda dirigida a pessoas negras em situações cotidianas, como ao entrar em um supermercado, e afirma que a exposição dos produtos ajuda a romper estereótipos.
A produtora defende que a presença quilombola não deve ficar restrita a datas específicas. Para ela, ocupar diferentes espaços é parte da luta por respeito, pela terra e pelo direito de as comunidades existirem sem preconceito.
Artesanato indígena e defesa do território
As representações indígenas na feira incluem as etnias Guarani, Kaingang e Xokleng. Júlia Gimenes, da aldeia Mbyá Guarani Guyra Nhendu, conhecida como Som dos Pássaros, em Maquiné, apresenta peças como bichinhos de madeira, paus de chuva, balaios, brincos, colares, apitos e pulseiras.
Gimenes afirma que a produção artesanal integra a agricultura familiar e é uma fonte de renda para a comunidade. A venda dos itens ajuda a custear as necessidades dos moradores, ao mesmo tempo em que leva ao público elementos da cultura indígena.
A artesã também relaciona a participação na Expointer às reivindicações dos povos indígenas. Entre os temas citados está a demarcação das terras, entendida como condição para a continuidade do modo de vida das comunidades. “Nossa luta também é muito difícil. Sempre nós batalhamos, lutando, e continua a luta”, afirma.
Assentamentos apresentam alimentos
A Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre (Cootap) levou arroz orgânico, geleias e extrato de tomate. Marcos Johnny dos Reis, assentado de Eldorado do Sul, diz que o contato direto com os visitantes permite apresentar a produção e enfrentar a visão sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) associada principalmente aos conflitos no campo.
De acordo com Reis, o arroz agroecológico ligado à cooperativa alcança cerca de 280 mil sacas por ano e está em expansão. O cultivo inclui o uso de bioinsumos, dentro de uma busca por práticas que conciliem produção de alimentos e preservação ambiental.
A cooperativa também transforma parte dos alimentos que não é vendida diretamente em geleias e extrato de tomate. O processamento reduz perdas e cria outras fontes de receita. Os produtos da Cootap chegam a cerca de 50 pontos de feira na Região Metropolitana de Porto Alegre.
Para Reis, a experiência ajuda a demonstrar a viabilidade da reforma agrária e a necessidade de estruturar os processos produtivos. Ele também relaciona a adoção de práticas de menor impacto ambiental ao período de tragédias climáticas no Rio Grande do Sul.
Expansão da agricultura familiar
O Pavilhão da Agricultura Familiar reúne produtores de 216 municípios e, nesta edição, tem 509 expositores. O conjunto inclui oito empreendimentos indígenas e três quilombolas, além de cooperativas e produtores assentados.
Entre os participantes, há 400 agroindústrias familiares, 74 empreendimentos de artesanato, 28 de plantas, mudas e flores e sete cozinhas. Também participam 69 empreendimentos com certificação orgânica. Nos cinco primeiros dias da feira, as vendas chegaram a R$ 5,803 milhões.
A presença desse setor na Expointer começou em 1999, quando a primeira Feira da Agricultura Familiar no parque reuniu 30 expositores. A ampliação ocorreu por meio da organização de entidades, cooperativas e movimentos do campo, em um evento historicamente associado à pecuária, às máquinas agrícolas e aos grandes produtores rurais.
Ao lembrar, em 2024, os 25 anos da participação da agricultura familiar, o ex-secretário estadual da Agricultura José Hoffmann relatou que a criação do espaço enfrentou resistência no fim dos anos 1990. Segundo ele, houve quem previsse que a iniciativa transformaria a Expointer em uma “favela”.
A 49ª Expointer termina neste domingo (6), no Parque Estadual de Exposições Assis Brasil, em Esteio. O pavilhão mantém a comercialização direta dos produtos durante o último fim de semana da feira.



