O filme “Naza”, dirigido pelos israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, chega aos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (8), na semana em que se completam três anos desde o início da resposta militar de Israel ao ataque do Hamas. A produção examina, por meio de entrevistas com integrantes das Forças Armadas e da inteligência israelenses, o uso de tecnologias para identificar alvos e conduzir bombardeios em Gaza.
Gravado ao longo de mais de dois anos, o documentário reúne depoimentos de 24 entrevistados, todos sob condição de anonimato. Entre os sistemas apresentados está o “Lavender”, uma inteligência artificial que usa ligações telefônicas e dados de geolocalização para apontar pessoas suspeitas de ligação com o Hamas. Os militares entrevistados afirmam que os celulares em Gaza são grampeados.
O sistema trabalhava com uma chance de erro de pelo menos 10%. Ainda assim, os responsáveis pela operação consideravam aceitável matar civis para atingir integrantes do grupo armado. Um exemplo apresentado no filme é o de uma pessoa que tivesse uma padaria próxima a um centro de treinamento do Hamas e, por manter contato frequente com integrantes do grupo, fosse classificada como suspeita.
Bombardeios e famílias inteiras
Os depoimentos indicam que os alvos eram procurados em suas casas, onde estariam menos preparados para um ataque. A morte de familiares era registrada como dano colateral, expressão traduzida do hebraico “Nezek Agavi”, abreviada como “Naza”. Embora as bombas não fossem lançadas de forma automática, um comando humano autorizava a ação. Um entrevistado afirma ter recebido permissão para matar 500 civis enquanto buscava atingir um único suposto integrante do Hamas.
Outra tecnologia descrita no documentário é chamada “Onde está papai?”. O sistema monitorava telefones e mensagens para identificar quando um alvo chegava em casa. Em um dos relatos, uma residência com 13 integrantes de uma mesma família foi destruída depois de um alarme falso: o suposto integrante do Hamas não estava no local.
A produção também menciona que cerca de 37 mil pessoas eram consideradas membros do Hamas. Em uma conversa registrada por Yuval Abraham, um oficial explica que poderiam ser mortos até 20 civis por alvo. Ao ouvir que a combinação resultaria na destruição de toda Gaza, o militar responde: “Oh, é toda a Gaza”.
Destruição e deslocamento
Com o avanço da ofensiva, os palestinos foram orientados a abandonar suas casas e seguir para o sul pelo Corredor Rashid. Entrevistados afirmam que a destruição da infraestrutura civil tinha como objetivo impedir o retorno das famílias. Um operador terrestre descreve a queima dos restos das casas e diz ter desenvolvido a capacidade de incendiar completamente um imóvel em oito minutos.
Imagens atualizadas do Google Earth apresentadas no filme mostram Gaza reduzida a ruínas. Dados da Organização das Nações Unidas indicam 61 milhões de toneladas de escombros e ao menos 10 mil corpos soterrados. A remoção completa desse material pode levar entre sete e dez anos.
As pessoas que seguiam para o sul também eram alvo de violência. Um atirador relata que sua função era balear à queima-roupa qualquer pessoa, inclusive crianças, que saísse do caminho definido pelo Corredor Rashid.
Os entrevistados demonstram posições diferentes sobre as operações. Alguns afirmam se arrepender de ter participado; outros defendem as ações e dizem que apenas cumpriam ordens. Ao final, Benjamin Netanyahu aparece em uma entrevista antiga definindo terrorismo como o ato de matar ou ameaçar alvos civis para alcançar objetivos políticos.


