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A intolerância contra Aparecida e a disputa pelo sentido da democracia

A violência contra símbolos religiosos é apresentada como parte de uma tentativa de transformar a fé em instrumento de poder político.

A intolerância contra Aparecida e a disputa pelo sentido da democracia

A multiplicação de ataques a símbolos católicos e a religiões de matriz africana e afro-brasileira expõe uma disputa que vai além das diferenças entre católicos e evangélicos. Na análise de Carlos Fidelis Ponte, presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), membro do Conselho Nacional de Saúde e pesquisador da Fiocruz, grupos fundamentalistas transformam a divergência religiosa em antagonismo e usam a fé como instrumento de poder.

A devoção a Nossa Senhora Aparecida surgiu no século 18. A imagem foi encontrada por pescadores em 1717 e, ao longo de três séculos e de diferentes regimes, tornou-se uma referência popular. Pio 11 a proclamou Padroeira do Brasil em 1930. Em 1980, uma lei sancionada por João Figueiredo estabeleceu 12 de outubro como feriado nacional. Para o autor, o Estado reconheceu uma tradição popular, mas não a criou.

Religião e poder político

É nesse contexto que Ponte relaciona a devoção a Aparecida à declaração de Flávio Bolsonaro de que, se eleito, decretará que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A Presidência, afirma, governa pessoas de todas as crenças e também aquelas que não seguem nenhuma religião. O caráter laico do Estado impede que uma fé seja imposta às demais.

O autor recorre ao conceito de Teologia do Domínio para interpretar a ocupação das instituições como parte de uma disputa religiosa. Algumas correntes, segundo ele, convergem nesse terreno com a extrema direita, da qual o bolsonarismo seria uma expressão relevante no Brasil. Essa associação, ressalva, não deve ser confundida com todos os conservadores ou com todos os eleitores de direita.

Ponte também rejeita a ideia de que a “polarização” explique, por si só, os excessos políticos. Para ele, reconhecer práticas antidemocráticas exige considerar diferenças de projeto, escala e responsabilidade. A referência à Alemanha nazista aparece como exemplo de preconceitos e antissemitismo organizados politicamente e levados ao genocídio, sem que isso signifique equiparar períodos históricos.

No Brasil, o autor menciona a contestação da eleição de 2022, os acampamentos que pediam intervenção militar e o 8 de Janeiro. Também cita a colocação de uma bomba em um caminhão-tanque com 63 mil litros de querosene de aviação nas proximidades do aeroporto de Brasília. Em 2024, Francisco Wanderley Luiz lançou um explosivo contra o STF e morreu ao detonar outro.

A análise ainda recorda que, durante a pandemia, um apoiador de Bolsonaro derrubou, em Copacabana, cruzes colocadas em homenagem às vítimas da Covid-19. Um pai que havia perdido o filho voltou a fincá-las. O episódio é apresentado como sinal de que até o luto passou a ser tratado como campo de batalha.

Inimigos e ressentimento

Desigualdade, exploração e insegurança podem alimentar ressentimentos, mas não definem automaticamente contra quem eles serão dirigidos. Em uma sociedade marcada pela escravidão, pelo racismo e por hierarquias de classe, a política pode deslocar esse mal-estar e criar inimigos entre pessoas que não produziram a desigualdade. Pobres, negros e minorias vulnerabilizadas ficam, assim, entre os alvos dessa hostilidade. Redes sociais e algoritmos ampliam a exploração de medos, preconceitos e ressentimentos.

O autor sustenta que mentira e demagogia não podem orientar quem pretende ocupar a Presidência. A confiança pública dependeria de responsabilidade pelo que é dito. Quando falsidades, contradições e recuos se repetem, caberia avaliar se são episódios isolados ou parte de um método. Outra estratégia apontada é o contra-ataque de quem deve explicações, com a criação de um novo assunto para deslocar a discussão. Acusações contra adversários podem ser investigadas, mas não substituem a resposta à questão original.

A mesma exigência de coerência é aplicada ao lema “Deus, Pátria, Família e Liberdade”. Deus não legitimaria a intolerância; pátria exigiria soberania e não combinaria com uma enorme bandeira dos Estados Unidos erguida no 7 de Setembro; família não poderia ser usada como instrumento de julgamento moral; e liberdade deveria valer também para quem pensa, acredita, ama ou vive de maneira diferente. A família brasileira, afirma Ponte, é plural.

A democracia, nessa perspectiva, não se limita ao voto. Ela depende do respeito ao Estado Democrático de Direito, da soberania, da inclusão e dos direitos. O autor descreve o momento como um confronto sobre os fundamentos da convivência: de um lado, autoritarismo, exclusão e intolerância convertidos em método político; de outro, uma sociedade pacífica, inclusiva, criativa e produtiva.

No centro da controvérsia está Nossa Senhora Aparecida, descrita por Ponte como uma mulher pobre, preta e popular. Em um país marcado por séculos de escravidão, desigualdade e hierarquias raciais, uma figura negra e popular tornou-se Padroeira do Brasil.

Defender Aparecida, os terreiros e o direito de cada brasileiro acreditar — ou não — significa, para o autor, defender uma sociedade soberana e inclusiva. Nela, ninguém imporia sua fé nem seria transformado em inimigo por sua origem, cor, condição social, religião ou modo de vida.

Carlos Fidelis Ponte conclui que a disputa em torno da imagem religiosa revela um conflito mais amplo sobre pertencimento e democracia. Quando uma sociedade passa a decidir quem pode fazer parte dela plenamente e quem deve se submeter, o risco não recai apenas sobre imagens religiosas: alcança a própria democracia.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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