BRASÍLIA — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Hamilton Mourão, General de Exército na reserva e ex-vice-presidente de Jair Bolsonaro, conversaram durante uma solenidade pelo Dia do Soldado, realizada em 25 de agosto no Quartel-General do Exército. O apoio de Mourão ao projeto de lei dos minerais críticos esteve entre os temas mencionados para o encontro.
A proposta já foi aprovada pela Câmara dos Deputados em maio e aguarda análise do Senado. O texto cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos. A iniciativa pretende ampliar a capacidade brasileira de proteção sobre recursos considerados estratégicos para a economia e a tecnologia nas próximas décadas.
A aproximação chama atenção porque Mourão ocupa simultaneamente posições que o colocam em campos políticos distintos: é senador de oposição, general da reserva e integrante da chapa que levou Bolsonaro à Presidência. O apoio ao projeto repercutiu principalmente entre setores de extrema direita.
A atuação política dos militares
O episódio reabre o debate sobre a existência de correntes nacionalistas nas Forças Armadas. Uma interpretação associada à tradição pecebista, marcada pela trajetória de Luís Carlos Prestes, sustenta que existem setores progressistas e nacionalistas entre os militares. Outra leitura entende que as posições variam de acordo com circunstâncias políticas e institucionais, entre tendências mais legalistas e movimentos em sentido contrário.
A perseguição e a repressão a militares progressistas e de esquerda depois de 1964 teriam reduzido o espaço para a organização desses grupos, sobretudo entre oficiais de alto escalão. Durante o período democrático, até a ascensão do bolsonarismo, as manifestações públicas de oficiais superiores foram descritas como defensivas. A imagem das Forças Armadas após a ditadura militar contribuiu para um período de ocultação de posições, definido por José Murilo de Carvalho como “o grande mudo”.
Essa postura começou a mudar com o processo de impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. Oficiais-generais passaram a se manifestar com maior frequência sobre política e governo. Eduardo Villas Bôas, Sergio Etchegoyen e Mourão estiveram entre os nomes associados a posições conservadoras e autoritárias, em convergência com a ascensão da direita reacionária.
Depois do julgamento da Ação Penal 2668 e da posse do governo Lula, houve novo recuo das manifestações públicas de militares. A análise atribuída a Maria Celina D’Araújo é que a corporação busca interesses próprios, tratamento diferenciado em políticas sociais e salariais e silêncio sobre o passado, sem necessariamente formular um projeto de país.
Nesse contexto, o movimento de Mourão é interpretado como uma tentativa de proteger o espaço de prestígio das Forças Armadas e delimitar sua posição diante de movimentos de aproximação do bolsonarismo com um eventual governo de Trump. A aprovação do projeto sobre minerais críticos aparece, assim, como uma possibilidade de cooperação entre o governo Lula e um senador de oposição, embora esse apoio tenha limites políticos a serem considerados.


