A declaração de Javier Milei sobre as Ilhas Malvinas recolocou a disputa de soberania no centro do debate político argentino, mas também trouxe perguntas sobre medidas concretas. Entre elas estão o futuro do projeto petrolífero Sea Lion, na bacia norte das ilhas, e a construção de uma base naval integrada em Ushuaia, na Terra do Fogo.
As reações da oposição oscilaram entre acusações de oportunismo e apoio à mudança de posição do governo. Para Jorge Taiana, ex-ministro da Defesa e deputado nacional, a base naval começou a ser construída em 2022 e teve as obras paralisadas por Milei “por três anos”. A retomada do tema, afirmou, não representaria uma estratégia geopolítica, mas “oportunismo eleitoral”.
A conexão com Washington
A movimentação argentina ocorreu depois de declarações ambíguas de Donald Trump sobre a posição dos Estados Unidos em relação às Malvinas. Na segunda-feira (31), durante uma entrevista coletiva no Salão Oval, Trump respondeu que sempre revê suas posições quando foi questionado sobre uma possível mudança de orientação americana.
Na quinta-feira (3), em entrevista à GB News, ele também evitou confirmar se os Estados Unidos manteriam a neutralidade histórica na disputa. Trump mencionou a guerra de 1982 e disse que os britânicos haviam recuperado as ilhas com firmeza, mas não apresentou uma posição clara sobre o futuro.
Esse contexto alimentou suspeitas de coordenação entre a Casa Branca e a Casa Rosada, possivelmente por meio de contatos entre funcionários de escalões inferiores ou de expectativas sobre declarações de Trump. A possibilidade de uma mudança americana já havia sido associada a um vazamento atribuído ao Pentágono em abril deste ano.
Petróleo e base naval
O projeto Sea Lion, ligado à petrolífera israelense Navitas, tornou-se um dos principais pontos de contestação. Em uma videoconferência de março deste ano, executivos da empresa disseram que Milei não considerava a extração de petróleo ao norte das Malvinas uma questão política e que o governo argentino não havia interferido.
O ex-embaixador dos Estados Unidos Jorge Argüello afirmou que o decreto regulatório e o projeto de lei de Defesa da Soberania Nacional anunciados por Milei não enfrentam o problema central. Para ele, a exploração não pode ser interrompida apenas por decisões nacionais, e a resposta deveria ser levada à ONU e relacionada à Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.
Carlos Bianco, ministro do Governo da província de Buenos Aires, disse que Milei levou “267 dias” para cumprir a Lei 26659, que proíbe participação, financiamento ou prestação de serviços a atividades não autorizadas de exploração de hidrocarbonetos na plataforma continental. Segundo Bianco, a província se opõe ao projeto da Navitas, previsto para produzir 50 mil barris por dia.
Gabriel Fuks, deputado do Parlasur pela UxP, afirmou que a Navitas já anunciou a continuidade do projeto e considerou improvável que os Estados Unidos ou outro país imponham sanções econômicas à empresa. Para ele, a base de Ushuaia também pode servir para justificar o alinhamento crescente da Argentina com Washington em assuntos marítimos, militares e de segurança.
Fuks avaliou ainda que a atenção sobre as Malvinas pode desaparecer rapidamente da agenda. Ao mesmo tempo, pediu que a oposição não trate o tema de forma simplista: mudanças no cenário internacional, incluindo as ações de Trump, poderiam abrir oportunidades inesperadas para a reivindicação argentina, mesmo que Milei esteja usando a questão para desviar o debate de outros assuntos.



