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A queda de Allende e a memória chilena reconstruída por Galeano

Em “O Século do Vento”, Eduardo Galeano narra a eleição de Allende, a pressão externa, o golpe e os primeiros dias da ditadura.

A queda de Allende e a memória chilena reconstruída por Galeano

A narrativa de Eduardo Galeano sobre o Chile acompanha um processo político que começou nas urnas e terminou sob bombardeios, com a morte de Salvador Allende no Palácio de La Moneda. Nesta sexta-feira (11), completam-se 53 anos do golpe de Estado que derrubou o presidente e abriu 17 anos de ditadura sob Augusto Pinochet Ugarte.

O episódio aparece em “O Século do Vento”, último volume da trilogia “Memória do Fogo”. Publicado em 1986, o livro percorre a história da América Latina desde 1492 e combina cenas baseadas em documentos, testemunhos e notícias com episódios históricos, lembranças do autor e elementos de mitologia. Para cada ano, Galeano reúne fragmentos narrativos, sem seguir necessariamente uma cronologia contínua.

Uma vitória cercada por obstáculos

Em 1970, a eleição de Allende é apresentada como um dos acontecimentos centrais. A votação direta ocorreu em 4 de setembro: Allende recebeu 36,63% dos votos, contra 35,29% de Jorge Alessandri. Como nenhum dos dois alcançou maioria absoluta, o Congresso decidiu o resultado conforme a Constituição de 1925.

Em 24 de outubro, 153 deputados, equivalentes a 78,46% do Congresso, votaram em favor de Allende. A posse, porém, enfrentava oposição dentro e fora do Chile. Harold Geneen, presidente da ITT, financiou com um milhão de dólares campanhas contra o socialista e a favor de Alessandri. O presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, também atuou para impedir a chegada de Allende ao poder.

Galeano registra que Nixon encarregou a CIA de impedir a posse ou derrubar Allende caso ele assumisse. Em 22 de outubro, René Schneider, comandante-chefe do Exército, foi emboscado depois de se opor ao golpe. O militar morreu 3 dias depois. Para Allende, o atentado transmitia uma mensagem direta: “Essas balas eram para mim”.

Após a posse, a pressão combinou medidas econômicas, sabotagens e propaganda. Empréstimos do Banco Mundial e de outros bancos foram suspensos, com exceção dos destinados a gastos militares, enquanto o preço internacional do cobre caiu. Henry Kissinger questionou a disposição dos Estados Unidos de assistir à transformação do Chile em um país comunista.

Participação política e desabastecimento

Em 1971, Galeano interrompe a sequência chilena para tratar da propaganda por meio do fragmento “O Pato Donald”. O personagem e seus sobrinhos aparecem como divulgadores da sociedade de consumo e de uma visão colonial sobre os países latino-americanos.

A cronologia retorna em 1972, quando o escritor descreve um Chile mobilizado pela recuperação do controle sobre o cobre, o ferro, o salitre, os bancos, o comércio exterior e os monopólios industriais. O período também foi marcado por propostas de participação operária na gestão das empresas, conselhos comunais para camponeses, mudanças no sindicalismo, democratização da cultura e atuação das Juntas de Abastecimento e Preços, conhecidas como JAP’s.

Allende também nacionalizou a ITT, usando como referência os valores declarados pela própria empresa em sua declaração de impostos. Ao mesmo tempo, as sabotagens financiadas do exterior e uma campanha de desabastecimento empurravam a população para o mercado negro em busca de produtos básicos.

Em 1973, a campanha pelo golpe ganhou força no jornal El Mercurio, nas rádios, em jornais de pequeno e médio porte e em canais de televisão. Burocratas do Estado, juízes, parlamentares e chefes militares conspiravam contra o presidente. Galeano também registra a reação dos trabalhadores, que tentavam produzir e se abastecer sem depender de patrões e comerciantes.

O golpe e os primeiros anos do regime

Em 11 de setembro, os militares cercaram o Palácio de La Moneda e exigiram a renúncia de Allende. Ele recusou ofertas para deixar o país e também rejeitou a renúncia. Durante o ataque, colocou um capacete, preparou um fuzil e falou pelo rádio. Morreu no mesmo dia, depois de cometer suicídio.

No discurso final, Allende afirmou que a história pertence aos povos e que chegaria o momento de abrir as grandes alamedas para a passagem do homem livre. O golpe, contudo, foi seguido por prisões, fuzilamentos e repressão. Galeano descreve o palácio em chamas e afirma que os militares mataram milhares de pessoas pelo Chile.

A Junta Militar que assumiu o poder reunia Augusto Pinochet Ugarte, José Toribio Merino Castro, Gustavo Leigh Guzmán e César Mendoza Durán. Os quatro haviam sido formados na Escola das Américas, no Panamá. Criada pelos Estados Unidos em 1946, a instituição passou a receber militares de países da região e difundiu uma formação marcada pelo anticomunismo, pela violência e pela ideia de combate ao chamado inimigo interno.

Neruda e a resistência ao medo

A narrativa de Galeano também acompanha os efeitos do golpe sobre Pablo Neruda. A casa de Allende foi bombardeada, assim como a residência do poeta. Em 19 de setembro, Neruda foi internado na Clínica Santa María, em Santiago. Morreu em 23 de setembro.

Em 2023, peritos internacionais confirmaram a presença da bactéria Clostridium botulinum no corpo do poeta. A família passou a compartilhar a hipótese de que ele poderia ter sido assassinado por envenenamento.

O funeral ocorreu sob intimidação militar, mas reuniu admiradores, flores e manifestações. Doze dias depois do golpe, os chilenos cantaram a Internacional pelas ruas de Santiago para acompanhar Neruda. Na reconstrução de Galeano, a cerimônia tornou-se uma das primeiras demonstrações públicas de resistência ao regime recém-instalado.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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