O presidente do Chile, José Antonio Kast, decidiu não realizar uma cerimônia oficial neste 11 de setembro, data que marca os 53 anos do golpe militar que matou o ex-presidente Salvador Allende. É a primeira vez, desde a retomada da democracia em 1990, que um chefe do Executivo chileno deixa de promover uma solenidade em memória do golpe.
Kast passará a data na região de Los Ríos, onde participará de atividades governamentais. A decisão foi tomada apesar da pressão de setores da oposição, que pediram algum gesto oficial diante do aniversário do episódio que deu início à ditadura de Augusto Pinochet.
A deputada Daniela Serrano, líder do Partido Comunista no Legislativo, afirmou que a ausência do governo transmite uma mensagem negativa e impede que o Estado reafirme seu compromisso com a verdade, a justiça e a não repetição de crimes políticos.
Memória e responsabilização
Organizações de direitos humanos, sindicatos e grupos estudantis organizaram marchas em cidades como Santiago e Antofagasta. No domingo (6), uma caminhada até o Cemitério Central de Santiago, onde Allende está enterrado, foi reprimida pelos carabineros, a polícia chilena.
A lembrança do golpe ocupa lugar recorrente na vida pública do Chile. Mais de 1.500 agentes da ditadura foram processados por crimes cometidos durante o regime. Pinochet também foi preso na Inglaterra por decisão da Justiça espanhola. Depois de retornar ao Chile, respondeu a processo, mas morreu em 2006 sem ser condenado.
Nos primeiros anos da década de 1990, o ex-presidente Patricio Aylwin promoveu o sepultamento oficial de Allende com honras de Estado. O gesto marcou uma das primeiras iniciativas de reconhecimento público da memória do presidente socialista, assassinado no Palácio de La Moneda durante o golpe.
Michelle Bachelet, que governou o Chile em dois períodos, de 2006 a 2010 e de 2014 a 2018, ampliou a cerimônia e transformou a data em uma ocasião anual de cobrança por reparação histórica. Mesmo Sebastián Piñera, presidente de centro-direita entre 2010 e 2014 e entre 2018 e 2022, promoveu atos no 11 de setembro e defendeu o fortalecimento da democracia.
Em 2023, o antecessor de Kast, Gabriel Boric, assinou com outros ex-presidentes o documento Compromisso pela Democracia, apresentado no Palácio de La Moneda. O texto defendia a preservação de princípios democráticos diante de ameaças autoritárias, da intolerância e do desprezo pela opinião alheia.
Os números oficiais registram cerca de 3,2 mil chilenos mortos por agentes do Estado e quase 40 mil pessoas torturadas e presas por razões políticas. Organizações de familiares estimam que a soma de mortos, desaparecidos, torturados e presos ultrapasse 100 mil.
A herança de Pinochet
A ausência de uma cerimônia ocorre em um país que, até 1998, ainda tratava o 11 de setembro como feriado de celebração do golpe, e não como uma data de lamento ou condenação. A transição democrática chilena foi considerada mais precária que as de Argentina e Uruguai, mas o país não costumava ignorar publicamente o aniversário do golpe.
A disputa também envolve o legado econômico da ditadura. O Chile preservou parte dos pilares econômicos implantados no regime, incluindo a abertura comercial e uma estrutura de rigor fiscal que restringiu políticas sociais. Seguridade social, saúde e educação continuam majoritariamente sob domínio de agentes privados.
Entre 1975 e 1981, o desemprego médio no país foi de 14%, enquanto os salários caíram 75% em comparação com o início dos anos 1970. Dados do Maddison Project Database indicam que o crescimento médio do PIB per capita durante a ditadura foi de 1,74% ao ano. Nos dezesseis anos anteriores, entre 1957 e 1972, a média havia sido de 2% ao ano. Nos dezesseis anos seguintes, entre 1991 e 2006, chegou a 4,3% ao ano.
A insatisfação com as desigualdades associadas à estrutura econômica iniciada por Pinochet contribuiu para o estallido social de 2019. Para o jornalista Carlos Alberto Almeida, o modelo neoliberal implantado durante a ditadura deixou marcas profundas e continua limitando governos de esquerda.
As conexões políticas de Kast com o período autoritário também são anteriores à Presidência. No início de 2025, antes de assumir o poder, ele nomeou Fernando Rabat para o Ministério da Justiça e Direitos Humanos e Fernando Barros para o Ministério da Defesa. Rabat integrou a equipe jurídica que defendeu Pinochet em acusações relacionadas ao desaparecimento de 119 opositores na Operação Colombo. Barros foi porta-voz e advogado pessoal do ex-ditador durante sua prisão em Londres, entre 1998 e 2000.
Kast fez campanha pela continuidade de Pinochet no plebiscito de 1988. Seu irmão, Miguel Kast, foi ministro e presidente do Banco Central durante a ditadura. O pai do presidente, Michael Kast, era alemão e deixou seu país para viver no Chile. Ele foi filiado ao partido nazista no início dos anos 1940, mas José Antonio Kast afirma que o pai foi recrutado à força pelo Exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial e nega que ele tenha sido partidário do nazismo.
Oposição dividida e agenda de segurança
A chegada de Kast ao poder estimulou parlamentares do Partido Nacional Libertário a apresentar um projeto para criar um Museu da Verdade em Santiago, em contraposição ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos. O deputado Johannes Kaiser, da extrema direita, defende que a proposta resgate a memória dos opositores do governo da Unidade Popular, coalizão que governava o Chile antes do golpe de 1973.
Os defensores do projeto afirmam que o período de Allende foi marcado por instabilidade política e econômica e que a memória oficial sobre o início da década de 1970 é incompleta. Para o jornalista Andrés Almeida, porém, a ascensão de Kast também está ligada à fragilidade da oposição, da esquerda e do governo Boric.
Almeida avalia que a esquerda chilena está dividida entre a superação do neoliberalismo e a convivência com esse modelo. Na visão dele, a ausência de Kast nas cerimônias pode aproximar setores progressistas, mas em uma posição defensiva.
O presidente também tem adotado uma agenda de segurança que enfrenta resistência até dentro do próprio governo. Uma megarreforma enviada ao Congresso pretende criar um estado de exceção duradouro sem autorização do Legislativo. Para Almeida, a preocupação com o crime organizado vem sendo usada para associar segurança pública a medidas autoritárias.
Carlos Alberto Almeida classificou a plataforma de segurança como uma política de intimidação da sociedade, dos manifestantes, dos estudantes e da juventude. A avaliação é de que o ambiente político chileno combina a permanência de impulsos autoritários com limites institucionais e setores da direita que também receiam a concentração de poderes.
A decisão de não realizar uma cerimônia pelo golpe retira do governo uma das principais ocasiões públicas de reafirmação da memória democrática chilena. Ao mesmo tempo, expõe a disputa sobre o significado do período de Pinochet, seu legado econômico e os limites da resposta estatal ao crime organizado.



