PORTO ALEGRE — Vitor Ramil e o cantor uruguaio Daniel Drexler se apresentam nesta quarta-feira (23), em duas sessões, às 18h e às 20h, no show de inauguração do Teatro Bancários RS. A apresentação reúne artistas ligados à música do Prata e à aproximação cultural entre Brasil, Uruguai e Argentina.
Na conversa, Ramil também revisitou quase três décadas de Ramilonga, obra que considera um marco zero de sua trajetória. Segundo o músico, o trabalho foi decisivo para que encontrasse uma linguagem própria para abordar o imaginário regional sem se prender ao folclore tradicionalista ou ao nativismo.
Uma linguagem para além dos estereótipos
Ramil afirmou que a Estética do Frio, tema de um livro que deve sair no ano que vem, propõe enfrentar estereótipos associados ao Rio Grande do Sul e à ideia de brasilidade. A proposta, disse, não pretende formar um movimento nem orientar o trabalho de outros artistas, mas estimular novas formas de olhar para o imaginário regional.
O músico relacionou essa busca à imagem do Rio Grande do Sul reduzida ao clichê do “gauchão a cavalo” e afirmou que esse enquadramento prejudicou a música urbana do Estado e sua comunicação com o restante do país. Para ele, Ramilonga ajudou a deslocar essa expectativa ao tratar a milonga como uma forma de canção urbana, capaz de abordar temas que não estejam ligados ao campo ou ao cavalo.
A literatura e a música, disse Ramil, fazem parte de um mesmo processo criativo. Seu livro mais recente de ficção, A Primavera da Pontuação, tem personagens ligados à gramática, e foi descrito por ele como uma experiência que o desafiou. O artista também contou que interrompeu uma ficção para concluir o ensaio sobre a Estética do Frio, trabalho que exigiu pesquisa, leitura e dedicação em casa.
A relação com o Sul e com o Prata
Ramil afirmou que viver no Interior, em Pelotas, influenciou sua maneira de observar o mundo. Para ele, estar fora de um centro permite tomar distância das modas e das pressões, além de estabelecer uma relação diferente com o tempo. O músico disse que voltou do Rio de Janeiro para viver no Sul e que sempre procurou transformar essa posição em fonte de criação, e não em sinal de afastamento.
A relação com músicos argentinos e uruguaios se aprofundou nos encontros Porto Alegre em Buenos Aires e Buenos Aires em Porto Alegre. Ramil também citou sua convivência com Pedro Aznar e Mercedes Sosa e afirmou que esses intercâmbios ajudaram a consolidar a percepção de que o Sul está no centro de outra história, e não à margem de um eixo formado por São Paulo e Rio de Janeiro.
Mercedes Sosa gravou Semeadura, composta por Ramil com José Fogaça, e depois o convidou a trabalhar em Não É Céu. O músico contou que passou uma ou duas semanas na casa da cantora, em Buenos Aires, e que a experiência contribuiu para o disco Tambong, produzido por Pedro Aznar, com músicos argentinos e participações brasileiras.
Democracia, soberania e cultura
Ao comentar o cenário político, Ramil classificou o momento brasileiro como delicado. Na avaliação dele, o país está diante de uma escolha entre democracia e autoritarismo e entre soberania e subserviência aos Estados Unidos. O músico também mencionou as condições da Argentina e disse considerar arriscada a defesa, no Brasil, de iniciativas associadas ao governo de Milei.
Ramil afirmou ainda que a cultura seria afetada caso Lula não fosse presidente e defendeu a reindustrialização do Brasil. Para ele, esse processo exigiria aprofundar medidas que, em sua avaliação, não são propostas pelos adversários do presidente.
Ao final, deixou uma mensagem aos eleitores: “Pensem no Brasil. Pensem menos em si mesmos, nos seus interesses. Pensem no país. Pensem a longo prazo. Pensem grande. Enfim, pensem com soberania.”


