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A xenofobia desvia o debate sobre migração e trabalho, diz análise

A retórica anti-imigração é apresentada como instrumento para ocultar desigualdades, precarização do trabalho e efeitos de políticas neoliberais.

A xenofobia desvia o debate sobre migração e trabalho, diz análise

A retórica anti-imigração ganhou espaço em diferentes regiões do mundo, mas, de acordo com a análise apresentada, ela desloca o debate sobre as causas da pobreza, do desemprego e da deterioração dos serviços públicos. A tese central é que o capitalismo depende do trabalho migrante precarizado e, ao mesmo tempo, usa a xenofobia para dividir a classe trabalhadora e dificultar a organização coletiva.

No Norte Global, esse discurso aparece associado à extrema direita. Em dezembro de 2025, Donald Trump chamou imigrantes somalis nos Estados Unidos de “lixo” e defendeu que fossem mandados de volta para o lugar de onde vieram. JD Vance classificou a imigração como a maior ameaça aos Estados Unidos e à Europa. Na Grã-Bretanha, Keir Starmer afirmou, em maio de 2025, que o país corria o risco de se tornar uma ilha de estranhos. Na Austrália, Andrew Hastie repetiu posteriormente uma formulação semelhante.

A xenofobia também se manifesta no Sul Global. Na África do Sul, grupos como a Operação Dudula, surgida em 2021, e a March and March, de 2024, promoveram mobilizações contra imigrantes. A população estrangeira atingida inclui pessoas vindas de Botsuana, Lesoto, Moçambique e Zimbábue. A análise associa esse processo à transferência de frustrações sociais para trabalhadores empobrecidos e vulneráveis, em vez de relacioná-las às estruturas econômicas e políticas do país.

A dimensão real da migração

Os dados apresentados contestam a percepção de que a migração internacional teria escala generalizada. Os migrantes internacionais correspondem a 3,6% da população mundial. A maior parte das pessoas que se desloca permanece no próprio país, indo do campo para a cidade ou de uma cidade para outra. Considerando também os deslocados internos, apenas um quarto dos migrantes e deslocados internos se desloca do Sul Global para o Norte Global.

A concentração da atenção em travessias do Mediterrâneo, na fronteira entre Estados Unidos e México e no Canal da Mancha também contribuiria para uma visão distorcida da geografia migratória. A maior parte dos deslocamentos ocorre dentro dos países ou entre nações vizinhas. Além disso, a maior parcela da proteção aos refugiados recai sobre países mais pobres do Sul Global.

A linguagem usada no debate é outro ponto de disputa. A expressão imigrante ilegal, mesmo quando dirigida apenas a pessoas sem documentos, acaba alcançando refugiados, requerentes de asilo, estudantes, familiares, trabalhadores temporários e imigrantes que entraram legalmente. O resultado é a associação entre a própria condição de imigrante e a ideia de transgressão.

Trabalho, riqueza e políticas públicas

Setores como agricultura, construção, logística e trabalho de cuidado dependem da mão de obra imigrante. Regimes legais restritivos e a ameaça de deportação, porém, podem facilitar a exploração e enfraquecer a negociação coletiva. O problema, nessa interpretação, não está no trabalhador imigrante, mas no poder dos empregadores de dividir os trabalhadores com base em seu status legal.

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico afirma que os imigrantes contribuem para os mercados de trabalho, as finanças públicas, o emprego e a criação de empregos, embora custos e benefícios sejam distribuídos de maneira desigual. Um estudo do Fundo Monetário Internacional, realizado em 34 países da OCDE entre 1980 e 2018, concluiu que um fluxo de imigrantes equivalente a 1% do emprego total elevou a produção econômica em quase 1% ao longo de cinco anos. Dois terços desse aumento vieram da maior produtividade do trabalho, e o estudo não encontrou evidências de redução do emprego dos trabalhadores nativos causada por grandes fluxos migratórios.

A chegada de imigrantes pode aumentar a demanda imediata por moradia, escolas, transportes e atendimento em saúde, sobretudo em áreas de concentração populacional. Ao mesmo tempo, imigrantes trabalham, produzem, pagam impostos e ocupam postos em setores com falta de mão de obra. Suas remessas também ajudam a sustentar famílias nos países de origem.

A análise situa a crise habitacional, o desemprego crônico, os transtornos mentais e o abuso de drogas em sociedades já afetadas pela austeridade e pela dívida. Privatizações, cortes em orçamentos municipais e redução da capacidade estatal são apresentados como políticas que favoreceram as classes ricas e proprietárias. Nesse quadro, os imigrantes passam a ser responsabilizados por problemas que não criaram.

Na África do Sul, a desigualdade fundiária ilustra esse deslocamento do conflito social. Sul-africanos brancos representam cerca de 7% da população e detêm 72% das terras agrícolas. Sul-africanos negros correspondem a quase 82% da população, mas possuem apenas 4% das terras agrícolas. A defesa da reforma agrária, segundo a análise, exige enfrentar estruturas mais complexas do que a violência contra uma loja de um imigrante pobre.

A conclusão é que combater a xenofobia depende de organizar trabalhadores imigrantes e nativos em torno de direitos comuns, salários, condições de trabalho e direitos de residência. O Partido Comunista Sul-Africano é citado como uma organização que adotou posição contrária à xenofobia e favorável à solidariedade. A ideia é resumida pelo poema “Nós, Refugiados”, de Benjamin Zephaniah, publicado em 2000: a origem e o deslocamento fazem parte da história de todas as pessoas.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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