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Ciência

Landell de Moura transmitiu voz por rádio antes de o meio se consolidar no Brasil

Padre realizou demonstrações em São Paulo, patenteou aparelhos nos EUA e enfrentou falta de apoio e acusações de ligação com o diabo.

Landell de Moura transmitiu voz por rádio antes de o meio se consolidar no Brasil

Em 16 de julho de 1899, o padre Roberto Landell de Moura realizou uma transmissão de voz humana e sons musicais por ondas de rádio entre o Colégio das Irmãs de São José, no bairro de Santana, e a Ponte das Bandeiras, em São Paulo. A distância era de cerca de quatro quilômetros, e o experimento é considerado por muitos historiadores a primeira transmissão desse tipo na história.

Até então, as ondas eletromagnéticas, também chamadas de ondas hertzianas, eram usadas principalmente para transmitir sinais telegráficos. A experiência de Landell ampliou esse uso ao transportar áudio. Durante a demonstração, o padre pediu que fosse tocado o Hino Nacional. O episódio ocorreu 23 anos antes da primeira transmissão oficial de rádio no Brasil, em 7 de setembro de 1922.

No ano seguinte, Moura fez uma nova demonstração em São Paulo, dessa vez até a Avenida Paulista, a oito quilômetros. Em busca de recursos e do reconhecimento de suas criações, viajou aos Estados Unidos em 1901 e permaneceu no país por três anos e meio.

Patentes e falta de financiamento

Landell registrou no Brasil, em 1901, um aparelho de transmissão à distância com fio e sem fio. Nos Estados Unidos, obteve, em 1904, patentes para um transmissor de ondas, um telefone sem fio e um telégrafo sem fio. Também elaborou o “telephotorama”, projeto de transmissão de imagens à distância que se aproximava da ideia de uma televisão primitiva.

O jornalista Hamilton Almeida, biógrafo do padre, afirmou que a viagem aos Estados Unidos tinha como objetivo levantar fundos para a continuidade das pesquisas. Almeida disse: “Nunca ganhou nenhum dinheiro. Apenas perdeu, na verdade.” A dívida contraída com um comerciante de Nova York chegou a US$ 4 mil, valor estimado no texto em cerca de R$ 600 mil.

No Brasil, a falta de apoio financeiro e institucional se somou à desconfiança em torno dos experimentos. Em 1902, ao New York Herald, Moura relatou que pessoas haviam invadido seu escritório e quebrado seus aparelhos por acreditar que as vozes transmitidas pelo rádio tinham origem diabólica. O inventor afirmou: “acreditando que eu estava de conluio com o diabo”.

A disputa pelo pioneirismo

A trajetória de Landell contrasta com a de Santos Dumont, que vinha de uma família abastada e conseguia financiar as próprias invenções. O padre passou a vida procurando meios para subsidiar suas pesquisas. A combinação entre sua atuação religiosa e o trabalho científico também enfrentava resistência em setores da Igreja Católica.

Guglielmo Marconi ficou internacionalmente associado à invenção do rádio. Em 27 de julho de 1896, ele realizou na Inglaterra uma transmissão radiotelegráfica pública. Em 1899, transmitiu sinais telegráficos sem fio pelo Canal da Mancha, a cerca de 50 km, e, em 1901, fez uma transmissão em código morse a aproximadamente 3.400 km.

Esses experimentos eram de telegrafia sem fio, não de voz. Landell havia transmitido voz e som, mas não alcançou a mesma repercussão. Ainda assim, a extensão de seu pioneirismo é debatida. Rodrigo Moura Visoni, também biógrafo do padre, afirma que as primeiras experiências bem-sucedidas de Landell podem ter ocorrido depois das de Marconi e atribui parte das versões mais favoráveis a um nacionalismo equivocado.

Formação e últimos anos

Roberto Landell de Moura nasceu em Porto Alegre, em 21 de janeiro de 1861, e era o quarto de 14 irmãos. Estudou Direito Canônico no Colégio Pio Americano e Física e Química na Universidade Gregoriana, na Itália. Retornou ao Brasil em 1887. Em 1892, quando era vigário em Santos, começou a desenvolver suas criações, depois de já ter elaborado um telefone rudimentar aos 16 anos.

Em 1906, a Câmara dos Deputados do Estado de São Paulo, atual Assembleia Legislativa, arquivou o pedido de recursos para que ele criasse uma linha industrial de aparelhos telefônicos e os comercializasse no país. Nos anos seguintes, o Brasil se tornou importador de tecnologias de radiotransmissão.

Landell continuou sua atividade religiosa. Enquanto era pároco em Mogi das Cruzes, praticou exorcismo e desenvolveu aparelhos para detectar o fenômeno, de acordo com o site oficial do religioso. As práticas foram interrompidas, e ele pediu demissão.

O padre morreu em 30 de junho de 1928, aos 67 anos, em Porto Alegre. Seus restos mortais estão na Igreja do Rosário, no centro da capital gaúcha. Ele deixou 40 cadernos manuscritos com anotações sobre física, química, biologia, filosofia, psicologia, parapsicologia e medicina. Para Moura, a fé e a ciência não deveriam estar em conflito; ele defendia que a Igreja Católica não era inimiga da ciência e do progresso humano.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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