A poluição produzida por incêndios está reduzindo a capacidade da Amazônia de retirar dióxido de carbono da atmosfera. Um estudo de pesquisadores da Universidade de Exeter, da ETH Zurich e da Universidade James Cook estima que os danos provocados pelo ozônio formado a partir da fumaça diminuem a absorção de carbono pela floresta em uma quantidade equivalente a cerca de 24% do CO₂ emitido pelo próprio fogo.
O resultado inclui uma perda que não se limita ao carbono liberado diretamente pela queima da vegetação. As substâncias emitidas pelos incêndios reagem sob a luz solar e formam ozônio no nível do solo. Na troposfera, essa forma do gás é prejudicial à saúde e às plantas, atingindo as folhas das árvores que permanecem de pé e reduzindo a capacidade delas de continuar absorvendo carbono.
Os detalhes foram publicados nesta quarta-feira (7) na revista Communications Earth & Environment. A pesquisa combinou observações de 1997 a 2024 com um modelo global de vegetação para analisar a relação entre incêndios, secas e danos causados pelo poluente.
Secas ampliam os danos
O efeito do ozônio se torna maior durante períodos de estiagem. Entre os episódios de seca mais extremos observados na Amazônia nas últimas três décadas, três coincidiram com fases de El Niño: 1997/98, 2015/16 e 2023/24. O fenômeno altera a circulação atmosférica e a distribuição de chuvas e temperaturas em diferentes partes do planeta.
O estudo afirma que os danos causados pelo ozônio na seca de 2023/24 quase dobraram em relação à média da década anterior. As mudanças climáticas não provocam o El Niño, mas elevam a temperatura média do planeta, o que pode fazer com que seus efeitos ocorram em um ambiente mais quente e contribuam para extremos climáticos mais intensos.
Impacto no Arco do Desmatamento
As maiores perdas relacionadas ao ozônio foram identificadas no Arco do Desmatamento, faixa localizada nas bordas sul e leste da Amazônia e marcada pela expansão agrícola e pela perda de vegetação. Os pesquisadores afirmam que quase todos os incêndios nessa área têm origem humana e estão principalmente associados ao desmatamento ou ao avanço de atividades agropecuárias sobre a floresta.
Para Stephen Sitch, professor da Universidade de Exeter, a redução do desmatamento e da degradação florestal diminuiria tanto as emissões diretas dos incêndios quanto essa fonte secundária de perda de carbono. Alexander Cheesman, da Universidade James Cook, afirma que os resultados indicam a necessidade de considerar conjuntamente incêndios, poluição do ar, desmatamento e mudanças climáticas ao avaliar o futuro da floresta.


