Uma pesquisa identificou proteínas de animais e plantas usadas como adesivos e fixadores em pinturas do Egito antigo. A análise examinou 28 amostras de objetos preservados em museus da Dinamarca, da Suécia e do Reino Unido, incluindo caixões de madeira, fragmentos de tumbas e estruturas arquitetônicas pintadas.
O estudo foi conduzido por pesquisadores europeus liderados por Clara Granzotto e Enrico Cappellini, da Universidade de Copenhague. As amostras abrangem o período do Novo Império, por volta de 1400 a.C., até o ano 400 da Era Cristã, quando o Egito já era uma província romana havia vários séculos.
Adesivos de origem animal
Em vez de se concentrar apenas nos pigmentos, a equipe investigou componentes responsáveis pela durabilidade das imagens. Uma técnica separou os elementos presentes nas tintas e permitiu identificar peptídeos, fragmentos de proteínas, por meio de uma espécie de balança molecular.
O colágeno apareceu como um dos componentes mais importantes. A principal origem identificada foi bovina, mas também foram encontrados sinais compatíveis com cabras e/ou ovelhas, jumentos, cavalos e antílopes. Os pesquisadores consideram que couro, vísceras e talvez ossos eram fervidos para produzir adesivos. Esses materiais poderiam ser sobras do consumo de carne ou de animais mortos por outras causas.
Proteínas da clara e da gema de ovos de galinha também foram detectadas. Elas estavam, por exemplo, em uma camada de tinta verde da tumba de Nebamun, escriba e contador que morreu por volta de 1350 a.C., provavelmente com função de fixação.
Cereais, gergelim e moringa
A análise encontrou proteínas de gergelim, de diferentes espécies de trigo e de cevada. Os autores afirmam que ainda não é possível determinar com clareza a utilidade dessas substâncias. Pastas feitas com farinha de cereais ou subprodutos da produção de óleo de gergelim podem ter sido usadas como fixadores.
Outro resultado foi a identificação de materiais derivados da moringa, especificamente da espécie Moringa oleifera. Na cultura egípcia, a planta era associada ao deus Ptah, ligado à criação e ao trabalho de artesãos e arquitetos. Para os pesquisadores, o uso da moringa em um fragmento de caixão pode ajudar a explicar a relação simbólica entre a divindade, a planta e os artífices.
A composição química também pode contribuir para a identificação de falsificações e alterações em objetos antigos. A equipe mapeou mudanças nas proteínas que surgem com a passagem dos séculos e que funcionariam como um relógio molecular, difícil de reproduzir por um falsificador moderno.
Análises futuras poderão investigar diferenças regionais na escolha e no preparo das matérias-primas. Isso poderia ajudar a indicar a região em que uma obra foi produzida mesmo quando sua procedência não tiver sido registrada.


