SÃO PAULO — Famílias brasileiras passaram a deixar a taxa de condomínio em atraso para priorizar dívidas com encargos mais altos, especialmente as do cartão de crédito. A prática, chamada de inadimplência estratégica, reduz o impacto imediato no orçamento, mas transfere a pressão para o caixa do condomínio e pode elevar o custo para os moradores que pagam em dia.
Tabata Alves, autônoma que mora no Belenzinho (SP) com o marido e as quatro filhas, contou que já deixou de pagar a mensalidade do prédio para manter em dia despesas como escola e plano de saúde. Em outra ocasião, atrasou o cartão de crédito e considerou essa a pior escolha, porque os juros do rotativo ficam acima de 400% ao ano.
A taxa condominial, por outro lado, costuma ter juros limitados a 1% ao mês, mais 2% de multa, o que equivale a aproximadamente 14,2% ao ano. Essa diferença faz com que algumas famílias priorizem faturas e financiamentos mais caros quando enfrentam uma queda de renda ou um imprevisto financeiro.
Condomínio compromete parcela relevante da renda
Um estudo da Pontual Garantidora indica que a taxa condominial representa em torno de 25% da receita do condomínio. Para Davi Duarte, gestor de Expansão e economista da Mhydas Planejamento Financeiro, o comportamento combina juros elevados com renda pressionada pela inflação. A avaliação é que o consumidor hierarquiza as dívidas, embora o condomínio esteja entre as obrigações mais baratas.
O Censo Condominial 2025/26, da uCondo, registra 327.248 condomínios ativos no Brasil. O Sudeste concentra 178.483, ou 55%, seguido pelo Sul, com 84.303, ou 26%, e pelo Nordeste, com 40.774, ou 13%. O Centro-Oeste reúne 17.582, ou 5%, e o Norte, 3.803, ou 1%.
Entre o 1º semestre de 2022 e o 1º semestre de 2026, a média da taxa condominial subiu de R$ 413 para R$ 538. O aumento foi de R$ 125, equivalente a 30,27% no período.
O peso varia entre as cidades. Em Niterói (RJ), a cota média é de R$ 1.150, diante de rendimento familiar médio de R$ 4.200, comprometendo 27,38% da renda. Em São Paulo (SP), a cota é de R$ 980 e o rendimento médio, de R$ 3.800, com comprometimento de 25,79%. Em Santos (SP), os valores são de R$ 920 e R$ 3.650, respectivamente, e o comprometimento chega a 25,21%.
Inadimplência cresce e afeta o caixa
No 1º semestre de 2026, 12,50% das taxas condominiais estavam atrasadas havia mais de 30 dias, conforme o levantamento da uCondo. O índice era de 9,72% no 1º semestre de 2022 e de 8,65% no 2º semestre daquele ano. Em 2023, ficou em 9,14% e 9,92%; em 2024, em 9,99% e 9,83%; e, em 2025, em 11,95% e 11,66% nos dois semestres.
O Norte apresentou a maior inadimplência, com 19,09%, seguido pelo Nordeste, com 12,71%, e pelo Sudeste, com 12,28%. O Sul registrou 11,61%, enquanto o Centro-Oeste teve 8,52%.
A pressão também aparece no orçamento das famílias. Em setembro de 2025, 30,5% dos lares brasileiros tinham contas em atraso, o maior nível da série histórica iniciada em 2010, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. Entre os inadimplentes, 13% disseram não ter condições de quitar os débitos atrasados.
A falta de pagamento reduz o dinheiro disponível para despesas como limpeza, manutenção, segurança, água, energia, gás, serviços terceirizados e mão de obra. Nos condomínios atendidos pela Pontual Garantidora, que são mais de mil, a média de impontualidade e inadimplência chega a 22%. Considerando apenas os pagamentos com mais de 30 dias de atraso, o índice fica em torno de 16%.
Para Guto Germano, sócio-diretor da empresa, os atrasos precisam ser incorporados ao planejamento anual e rateados entre os moradores adimplentes. Assim, o atraso de uma unidade pode aumentar o custo dos demais condôminos.
Dívida pode levar à cobrança judicial
A postergação da taxa não elimina a dívida. O débito condominial está vinculado ao próprio imóvel, característica jurídica conhecida como propter rem. Além do valor original, podem incidir juros, multa, encargos extrajudiciais e advocatícios. Se a cobrança chegar à Justiça, também podem ser acrescentadas despesas judiciárias; em caso de execução sem pagamento, o imóvel pode ser levado a leilão.
O condomínio funciona como uma divisão das despesas comuns entre as unidades. Por isso, a inadimplência de um morador afeta a capacidade de manter os serviços e cumprir o orçamento previsto. Em um exemplo hipotético usado por Germano, um condomínio com dez unidades e R$ 100 mil em despesas mensais perderia 10% da receita prevista se uma unidade deixasse de pagar.
Apesar da alta acumulada, a uCondo identificou uma melhora posterior. No 2º semestre de 2025, a inadimplência acima de 30 dias era de 11,66%. O monitoramento até julho de 2026 apontou 9,74%, uma queda de 1,92 ponto percentual. Pelos cálculos da empresa, isso corresponde à recuperação posterior de 16,46% dos débitos.


