A entrada das canetas emagrecedoras no Sistema Único de Saúde (SUS) pode influenciar os preços nas farmácias de forma indireta. A avaliação de especialistas é que compras públicas em grande escala dariam mais poder de negociação ao governo, ampliariam a produção nacional e aumentariam a competição entre fabricantes.
O efeito, porém, não seria automático. Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, afirma que a presença dos medicamentos no SUS pode transformar o mercado, mas não estabelece uma ligação direta entre o preço negociado pelo governo e o valor cobrado no varejo. Para ele, a principal pressão continuará vindo da concorrência, sobretudo com o fim da exclusividade da semaglutida e a entrada de novos fabricantes nacionais.
Gabriel Pinheiro, especialista em investimentos e sócio da GT Capital, avalia que a redução dos preços começou antes de uma eventual distribuição ampla pelo SUS. Ele relaciona esse movimento à concorrência, à quebra da patente da semaglutida em março e à entrada de EMS, Hypera e Eurofarma no mercado.
Escala pode reduzir custos da indústria
Pinheiro considera que as compras públicas não transferem automaticamente descontos para o balcão das farmácias. O possível impacto ocorreria porque o volume adquirido pelo SUS permitiria aos fabricantes diluir custos, reforçando uma disputa de preços que já existe no varejo.
Augusto Parente, especialista em investimentos e sócio-fundador da AW Capital, também vê potencial de mudança na dinâmica do setor. Na avaliação dele, o governo, como comprador de grandes volumes, pode aumentar seu poder de negociação e estimular investimentos na produção nacional.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que a ampliação da oferta já contribui para a redução dos valores no mercado. Segundo ele, um produto que custava R$ 1,7 mil ou R$ 2 mil já pode ser encontrado entre R$ 300 e R$ 400 na farmácia. Padilha também disse que o governo busca estimular a fabricação local de canetas à base de semaglutida, cuja patente expirava neste ano de 2026.
Disputa inclui fabricantes globais
A competição também envolve Novo Nordisk e Eli Lilly, empresas que lideraram a expansão dos medicamentos GLP-1. De acordo com Pinheiro, as companhias perderam o monopólio de preço no Brasil, mas se anteciparam à mudança.
A Novo submeteu novamente o Wegovy à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), responsável por avaliar a entrada de medicamentos e tratamentos na rede pública. A proposta foi apresentada com desconto de quase 60%, sinalizando que a disputa pelo mercado público também pode pressionar os preços das farmacêuticas globais, especialmente com a presença crescente de fabricantes nacionais.


