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Eileen O’Shaughnessy, a mulher que a história de Orwell deixou à margem

Livro de Anna Funder reconstrói a trajetória da escritora e mostra como o trabalho de Eileen sustentou a carreira do marido.

Eileen O’Shaughnessy, a mulher que a história de Orwell deixou à margem

A escritora e poeta Eileen O’Shaughnessy teve papel decisivo na vida e na obra de George Orwell, mas foi deixada em segundo plano nas biografias do autor. Esse apagamento é investigado por Anna Funder em A vida invisível da Sra. Orwell, publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

Eileen foi a primeira esposa de Orwell, autor de A Revolução dos Bichos e 1984. Ao reconstruir sua trajetória, Funder mostra como o trabalho doméstico, intelectual e administrativo da mulher criou as condições para que o escritor pudesse produzir. A pesquisadora Maria de Lourdes Eleutério relaciona esse processo à desvalorização histórica do trabalho feminino, inclusive quando a mulher exerce uma profissão ligada à produção artística.

O trabalho que desaparece das biografias

Eileen trabalhava durante o dia em um ministério e, no restante do tempo, cuidava da casa, fazia compras, cozinhava, editava e datilografava os textos do marido. Para Funder, essa rotina revela uma produção que dependia do esforço de duas pessoas, embora apenas uma delas tenha sido reconhecida como autora.

A autora examinou sete biografias de Orwell, todas escritas por homens, e identificou nelas um padrão: as mulheres aparecem, mas têm sua participação reduzida ou são retiradas da posição de sujeitos da história. Um dos mecanismos desse apagamento é o uso da voz passiva, que descreve ações sem indicar quem as realizou.

Em Homenagem à Catalunha, Eileen é mencionada apenas como “minha mulher”, enquanto sua atuação durante a Guerra Civil Espanhola permanece fora do centro da narrativa. O cruzamento de documentos e notas de rodapé permitiu a Funder reconstruir sua presença em Barcelona. Eileen trabalhou no Independent Labour Party, datilografou as anotações de Orwell e atuou em um ambiente marcado pela perseguição stalinista. A autora conclui que ela salvou vidas.

Eleutério afirma que a invisibilização também atingia as próprias mulheres, que durante muito tempo não tinham consciência das violências e do apagamento a que estavam submetidas. Essa lógica aparece até nas cartas de Eileen. Ao procurar recursos para uma cirurgia e considerar a venda de uma casa, ela escreveu: “Eu realmente não acho que valho o dinheiro”.

Uma trajetória intelectual própria

Antes do casamento, Eileen já havia construído uma carreira. Nascida em uma família anglo-irlandesa de classe média alta, recebeu uma bolsa para estudar literatura em Oxford, onde teve J. R. R. Tolkien entre seus professores. Pretendia seguir a carreira acadêmica, mas abandonou esse projeto depois de não ficar entre os primeiros colocados do curso. Funder relaciona o resultado também ao preconceito de gênero.

Eileen trabalhou como professora, leitora, cronista, palestrante e secretária. Em 1931, abriu o próprio escritório. Três anos depois, concluiu o mestrado em psicologia na University College London. Seu orientador, Cyril Burt, a considerava de “capacidade acima do comum”. Ainda em 1934, publicou o poema distópico Fim do século 1984, antes de conhecer Orwell. Funder relaciona o título ao romance 1984, lançado pelo marido em 1949.

Os dois se conheceram na primavera de 1935, em Londres, durante uma festa organizada por uma amiga em comum. Orwell se impressionou com a personalidade de Eileen, começou a cortejá-la poucas semanas depois e a pediu em casamento. Ela recusou inicialmente, mas aceitou mais tarde.

Ao lado do escritor, Eileen exerceu funções que iam além da secretaria. Foi leitora, interlocutora e editora. Em A Revolução dos Bichos, segundo Funder, ela convenceu Orwell a transformar um projeto de ensaio sobre Stálin e o totalitarismo em uma fábula. A leveza do livro chegou a ser associada à inteligência de Eileen.

A pesquisadora também destaca a importância das companheiras na preservação e na circulação da obra de escritores depois da morte deles. Como exemplo, menciona Aurora Bernardes, primeira mulher de Julio Cortázar, que traduziu textos, organizou antologias, cuidou da publicação de inéditos e atuou como testamenteira do escritor.

Eileen morreu antes de Orwell, em 1945, aos 39 anos, durante uma histerectomia malsucedida. Depois da morte dela, o escritor passou a procurar alguém que pudesse substituí-la, especialmente no trabalho de datilografia. Funder observa que ele precisava fazer emendas nos textos e acompanhar a redatilografia para decifrar os próprios rabiscos.

A recuperação da história de Eileen por uma pesquisadora, 80 anos depois de sua morte, também é apresentada como parte de um padrão mais amplo. Para Eleutério, a descoberta de uma mulher frequentemente leva à descoberta de outras que permaneceram fora das narrativas conhecidas.

Texto produzido pela Redação Diário de Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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