Brasileiros das classes A, B e C que têm acesso à internet conseguem organizar as despesas do mês, mas enfrentam dificuldades para formar reservas, investir para a aposentadoria e lidar com imprevistos. É o que indica a primeira edição do Índice Planejar, elaborado pela Associação Brasileira de Planejamento Financeiro (Planejar).
O país alcançou 52,7 pontos em uma escala de 0 a 100. Nesse indicador, notas maiores representam níveis mais altos de planejamento financeiro. O grupo de 25 a 44 anos teve o pior desempenho entre as faixas etárias avaliadas.
Na avaliação da Planejar, o resultado revela espaço para ampliar o planejamento das finanças pessoais. “Isso mostra que ainda tem muita oportunidade para trabalhar o planejamento financeiro na população brasileira”, afirmou Hilton Notini, gestor de Riscos e consultor da entidade.
Controle do orçamento não significa resiliência
A gestão do orçamento foi a dimensão com melhor resultado. Ainda assim, o estudo separa a capacidade de acompanhar receitas e despesas da existência de recursos suficientes para enfrentar perda de renda ou gastos inesperados.
Uma pessoa pode saber quanto ganha e quanto gasta sem ter uma estrutura financeira que permita atravessar uma emergência. A pesquisa também diferencia a posse de produtos de poupança ou investimento da manutenção de uma reserva destinada a situações imprevistas.
Essa diferença aparece nas notas atribuídas aos dois aspectos. O item relacionado à posse de produtos de poupança ou investimento registrou 75,7 pontos, enquanto a capacidade de manter a vida financeira durante uma interrupção de renda ficou em 21,3 pontos.
“Organização financeira não basta. Eu ainda posso saber quanto ganho e gasto, mas precisar recorrer a um financiamento para pagar alguma conta em atraso ou deixar um boleto para trás”, afirmou Ana Leoni, CEO da Planejar.
Aposentadoria tem baixa pontuação
O planejamento de longo prazo também apresentou resultado limitado. O índice registrou 43,3 pontos nessa dimensão, enquanto o componente ligado à previdência privada alcançou 15,3 pontos, uma das menores notas do levantamento. Para Hilton Notini, essa é “uma das piores notas que temos no estudo”.
Os dados indicam uma diferença entre reconhecer a importância de se preparar para a aposentadoria e adotar comportamentos voltados efetivamente a esse objetivo. A existência de algum investimento, portanto, não é tratada pela pesquisa como prova suficiente de preparação financeira para o futuro.
Pressão maior entre 25 e 44 anos
O desempenho não cresceu de forma automática com a idade. Os participantes de 25 a 44 anos tiveram o resultado mais baixo, enquanto o grupo com 61 anos ou mais obteve a melhor pontuação.
De acordo com os organizadores, a faixa mais pressionada reúne responsabilidades como formação de família, financiamentos de longo prazo e uma carreira ainda em consolidação. Ao mesmo tempo, essas pessoas tendem a ter menos patrimônio acumulado para absorver as despesas.
O índice considera que os desafios financeiros se modificam ao longo da vida. Por isso, as prioridades e as estratégias de planejamento podem variar conforme a fase vivida.
Metodologia do levantamento
Em sua primeira edição, o Índice Planejar foi criado para mapear como os brasileiros lidam com as próprias finanças e apontar os aspectos que exigem mais atenção. A avaliação é dividida em cinco dimensões: gestão orçamentária; impacto do endividamento no orçamento; reservas e resiliência; proteção e seguros; e planejamento de longo prazo.
A metodologia considera as mudanças nas prioridades financeiras ao longo da vida e procura avaliar o que as pessoas fazem com o dinheiro, não apenas o conhecimento que dizem ter ou a percepção de que são organizadas.
O estudo ouviu 2 mil pessoas e tem margem de erro de aproximadamente 2 pontos percentuais. Mulheres representam 53% dos entrevistados, e homens, 47%. A idade média foi de 40 anos. A distribuição por faixa etária inclui 16% de 16 a 24 anos; 23% de 25 a 34 anos; 23% de 35 a 44 anos; 28% de 45 a 60 anos; e 10% com 61 anos ou mais. A renda familiar média foi de R$ 5.778.
Para Ana Leoni, o levantamento pode ajudar profissionais que trabalham com clientes e a população a identificar quais dimensões devem ser priorizadas. A proposta é usar o índice como direcionador de estratégias para melhorar a aplicação prática do planejamento financeiro. “Planejar não é apenas controlar o orçamento ou fazer as contas fecharem no fim do mês. É olhar para diferentes dimensões da vida financeira e entender quais devem ser priorizadas em cada fase”, afirmou.


