A Saint-Gobain reorganiza sua atuação no Brasil depois de vender a Telhanorte e deixar definitivamente o varejo. A companhia francesa pretende acelerar negócios ligados à infraestrutura, como construção e reparo de pontes e estradas, além de ampliar o mercado de drywall, sistema formado por chapas de gesso.
A estratégia ocorre enquanto avança o pacote federal de concessões de rodovias. A empresa pretende atender principalmente companhias privadas de engenharia que vencerem licitações, sem contratar diretamente com o poder público. Empresas de saneamento básico também estão entre os alvos da unidade brasileira.
A Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) projeta que os investimentos em infraestrutura no Brasil chegarão a R$ 300 bilhões em 2026. Para Camille Harrissart, CEO da Saint-Gobain na América Latina, há oportunidades em concreto, cimento, reparos, impermeabilização e soluções voltadas à descarbonização. “O mercado é imenso”, afirmou.
Reorganização por mercado
A companhia está deixando de organizar suas operações apenas por linhas de produtos e passou a estruturá-las de acordo com os mercados atendidos. A maior parte da receita ainda vem do segmento residencial, mas a prioridade é acelerar as soluções para infraestrutura e para o setor não residencial, que inclui edifícios comerciais.
O movimento ganhou reforço com a compra global da Fosroc, concluída em fevereiro por US$ 1 bilhão. A empresa atua no desenvolvimento de produtos químicos para a construção civil e já havia operado no Brasil entre a década de 1980 e 2003, quando pertencia à petrolífera britânica British Petroleum (BP).
A Saint-Gobain pretende retomar a produção de aditivos para concreto e soluções de impermeabilização na fábrica de Mogi das Cruzes, em São Paulo. O grupo mantém 50 parques fabris no país e reúne mais de 15 marcas, entre elas Quartzolit, Brasilit e Tekbond.
Uma das primeiras iniciativas nessa área ocorre no porto de Suape, em Pernambuco, com reparos de concreto e impermeabilização do solo. O contrato foi firmado com a empresa responsável pela obra, e não com a autoridade portuária.
Fábrica de drywall na Bahia
Para ampliar sua presença no segmento não residencial, a Saint-Gobain prepara um investimento de cerca de R$ 500 milhões em uma fábrica de drywall em Feira de Santana, na Bahia. A unidade será a maior da América Latina. Os estudos técnicos já começaram, e a previsão é que as obras sejam concluídas em 2028. Segundo Harrissart, a capacidade da companhia para esse produto aumentará 70%.
O foco atual está principalmente no setor industrial, embora a empresa também atue em empresas e edifícios. No mercado residencial, a estratégia inclui empreendimentos de multipropriedade e, progressivamente, casas. A executiva afirmou que ainda existe resistência cultural ao drywall em apartamentos, mas que a solução vem ganhando espaço por ser mais competitiva e rápida.
O consumo de placas de gesso no Brasil é de 0,8 metro quadrado por habitante. Na França, o índice é oito vezes maior; nos Estados Unidos, quinze vezes maior. A empresa avalia que o predomínio da alvenaria no país está mudando com a expansão das soluções leves.
Entre os projetos citados estão os edifícios do Cacau Park, em Itu, no interior paulista, e parte do empreendimento Parque Global, em São Paulo. Nos dois casos, a demanda veio do setor privado.
Saída do varejo
A reorganização também ajuda a explicar a venda da Telhanorte para a Tauá Partners. A operação, que envolveu 27 lojas e um centro logístico, foi oficializada no dia 4 de maio, sem divulgação do valor.
Harrissart disse que a saída está ligada à decisão de concentrar o portfólio em soluções industriais e de infraestrutura. A operação brasileira foi encerrada de forma definitiva, e a executiva afirmou que o negócio não representava uma parcela expressiva do faturamento do grupo.
Com a mudança, a Saint-Gobain pretende alcançar crescimento anual de até 9% até 2030 e manter 40% de rotatividade no faturamento. A empresa registra receita de € 1,9 bilhão no Brasil, metade dos € 3,8 bilhões obtidos na América Latina. O país está entre o 5º e o 6º maior mercado global da companhia e lidera a operação latino-americana.
Na Bolsa de Paris, as ações acumulam queda de 18,8% em 2026 e desvalorização de 24,7% em 12 meses. O valor de mercado da Saint-Gobain é de € 35 bilhões.



